maio 18, 2012

............................................... VIVER e MORRER em LONDRES

câmara cascudo passeando de riquexó em moçambique, áfrica, 1963
REVISTA PREÁ
Editor: Mário Ivo Cavalcanti 


VIVER E MORRER EM LONDRES

por Antonio Nahud

Morar no estrangeiro nunca esteve presente nos meus objetivos de vida, nem mesmo em meus sonhos. Porém, em 1994, surgiu uma oportunidade concreta de trabalhar como assessor de comunicação de um grupo teatral na Galícia, Espanha. Resolvi arriscar, afinal, como disse Pablo Neruda, “morre um pouco a cada dia quem nunca arrisca algo novo”. O trabalho não deu certo, o diretor era um tirano. Coloquei minha mochila nas costas, Rainer Maria Rilke no coração e parti, primeiro para Madri, depois Barcelona, Lisboa, Sintra, Tanger e, em 1999, estava em Londres, buscando aprender uma nova língua e disposto a novas aventuras e desventuras durante esse tempo como peregrino nas terras de Charles Dickens. Alojei-me inicialmente em Wimbledon, um distrito ao sul de Londres, em um prédio vitoriano de dois andares com tijolos aparentes, simpático, embora povoado por corvos gordos e histéricos que me assustavam.

O que primeiro me surpreendeu foi a população da capital inglesa: uma mistura de diferentes povos, culturas e religiões. São estimados em mais de 300 os idiomas falados nessa Torre de Babel. Tinha a sensação do que é estar na esquina do mundo e, por outro lado, a noção de como o mundo é minúsculo. Aos olhos de um observador distraído, Londres tem um estilo único: ruas inteiras de casas com a mesma fachada. Mas uma observação mais atenta mostra uma arquitetura herdada de diferentes momentos históricos: a Londres romana, a medieval, a elisabetana, a georgiana, a vitoriana, a moderna, etc. Para quem chega pela primeira vez tudo parece encantador: uma cidade organizada, funcional, com transporte público, lazer e policiamento eficientes. A Londres turística é umas das cidades mais visitadas do planeta. Realmente é bela e merece ser explorada. Porém, ir além do turismo, ou seja, mergulhar na vida cotidiana dos seus habitantes e na rotina dos subúrbios foi minha opção. O choque inicial aconteceu ao visitar, à noite, a praça onde viveu a minha escritora favorita, Virgínia Woolf, descobrindo um verdadeiro açougue humano. Vultos circulavam discretamente, não sendo possível enxergar seus olhos de bichos noturnos sedentos de sexo. Escondiam-se nas sombras, nos plátanos, nos arbustos, à espera da presa certa. Acontecia bem rápido. Nada de beijos, apertos de mãos ou conversas fiadas. Os ingleses se encontravam e copulavam ali mesmo. A liberdade era total. Foi quando eu constatei que aquela cidade era diferente de todas as cidades que eu conhecia.

Conheci também a Londres “barra-pesada” nos bairros de Harlesden e Brixton, onde vivem predominantemente indianos, caribenhos – jamaicanos, principalmente - e muitos africanos. Juntam-se a esta população mais antiga, imigrantes vindos dos mais diferentes países e uma inacreditável quantidade de brasileiros nas ruas, nas lojas e no transporte público. Normalmente escutava alguém conversando em português. Harlesden e Brixton são bairros de pobres num país rico.  A Londres que o turista não faz questão de conhecer ou nem sabe que existe. A Londres indiana, negra e multicultural, com cara de sofrida e cansada. Os custos de moradia não são baixos. Geralmente os imigrantes dividem quartos e pagam uma média de 50 libras por semana.  Eu compartilhava um antigo casarão com uma canadense, um francês, um italiano e uma argentina. Uma verdadeira piração, eles só pensavam em sexo, drogas alucinógenas e encher a cara de vinhos baratos. Já o meu objetivo era absorver a arte local. Quando não estava no cursinho de inglês de última qualidade ou lendo no Hyde Park, freqüentava os fabulosos museus, shows pop’s ou eruditos gratuitos, teatros, galerias de arte, bibliotecas etc., participei de encontros literários alternativos, li poemas meus ao lado do velho beatnick Lawrence Ferlinghetti e, totalmente pelado, diante de um público numeroso, interpretei poemas de Hilda Hilst e Ferreira Gullar no projeto “The Naked Poets”.

Depois de seis meses sem ter evoluído muito no aprendizado do inglês, andando com malandros italianos e espanhóis, mergulhei numa inesperada depressão. Sentia falta do sol, das cores tropicais, da balbúrdia nordestina. Não suportava o tempo cinzento, chuvoso e úmido. Nessa época calamitosa, escrevi os meus melhores poemas - épicos, humanos. Eu me sentia morto, mas renascia subitamente diante de “A Alegoria do Amor”, de Paolo Veronese, na National Gallery. Eu me sentia morto, mas renascia subitamente diante de Nina Simone cantando em um pequeno teatro. Eu me sentia morto, mas renascia subitamente diante de Dame Judi Dench interpretando Shakespeare no Old Vic. Eu me sentia morto, mas renascia subitamente diante das gravuras espiritualizadas de William Blake. Eu me sentia morto, mas renascia subitamente diante dos templos gregos no Museu de História Natural. Passei um ano mergulhado nessa estranha melancolia ávida por momentos de beleza artística. Terminei por ficar amigo da escritora Doris Lessing – prêmio Nobel de Literatura -, tomava chá com ela e saciava sua curiosidade sobre os costumes brasileiros. Tive um romance estúpido com o fútil ator inglês Rupert Everett (de “O Casamento do Meu Melhor Amigo” e “O Marido Ideal”), que me levava para elegantes casas de campo ou reuniões festivas em Chelsea, Richmond e West Hampstead, os bairros mais caros de Londres. Acostumado com a péssima comida da cidade, vivendo a base de fish & chips (bacalhau frito com batatas fritas), com Rupert provei maravilhosos pratos típicos da cultura inglesa, como o delicioso beef Wellington, yorkhire pudding ou cornish pasty. No entanto, normalmente estava sozinho, enxergando vultos assombrados – que voavam ou saiam da terra diante de meus olhos arregalados -, passando dias inteiros nos bucólicos cemitérios, e escrevendo, escrevendo como um demente.

Não tinha conhecidos brasileiros, evitava-os. Jamais ia aos eventos organizados pela Embaixada do Brasil, descartando seus convites. Sabia que era muito comum entre os brasileiros a máxima de que brasileiro não deve confiar em brasileiro que vive no estrangeiro. Sabia de histórias horríveis de conterrâneos legalizados que denunciavam patrícios em situação ilegal ao Home Office (órgão da imigração). A grande maioria dos brasileiros que vive em Londres não valoriza a cidade. Acaba entrando num espiral de trabalho–casa e, no máximo, um churrasco de fim de semana com seus parceiros “brazucas”. Não sabe absolutamente nada que vá além do círculo da comunidade brasileira. Essas pessoas falam muito pouco inglês e conhecem quase nada da cultura local. Um desperdício. Eu fazia justamente o contrário, virando a “verdadeira” Londres de cabeça pra baixo e distante de qualquer churrascaria ou bares tupiniquins. Tinha o costume de freqüentar, sem sair de meu bairro, restaurantes espanhóis, mexicanos, italianos, franceses, árabes, turcos, japoneses, chineses, indianos, nepaleses e gregos.


Nunca achei o povo inglês frio e antipático. Seria simplificar demais o tema. Aprendi que toda metrópole é fria e antipática. Entretanto, se vivo numa grande cidade, não estou atrás de sorrisos ou delicadezas. O que existe em Londres é uma indiferença generalizada. Algo que pode ser muito bom, por um lado, já que ninguém se mete na sua vida e nem questiona suas manias, mas também ruim porque nos faz sentir isolados. Nessa terra, o frio predomina, o egoísmo é notório e o sonho da independência financeira não passa de uma mera utopia. O inglês típico é bastante sisudo, talvez por isso beba tanto para se soltar. E como bebe. É muito comum encontramos homens e mulheres completamente embriagados, jogados nas ruas e no metrô. O pub é uma instituição sagrada. Para saber como os ingleses são de verdade basta freqüentar um pub e interagir com as pessoas. Nesses bares clássicos, eles se soltam e celebrarem a vida.

Parti de Londres levando na bagagem muitas histórias, aprendizado, amizades conquistadas e uma experiência de vida que me fez crescer. Aprendi muito em relação ao mundo, esta aldeia global que cada vez está mais complicada. Pude olhar, ver e sentir de perto uma Londres marcada por fronteiras. Vivi as fronteiras da língua, da raça, das etnias, do dinheiro... Ainda assim, a minha condição de exilado voluntário reforçou o idealismo poético de um viajante que não se cansa de se surpreender, de se emocionar com o que encontra ao longo do caminho. Desse modo, misturando países, línguas, costumes, angústias, alegrias e descobertas, insuflei frescura natural no coração inquieto, procurando o Graal dentro de mim mesmo e fugindo do confinamento existencial claustrofóbico. Será que foi um desperdício de vida? Talvez. Como escreveu o poeta chinês Zhang Kejiu: “Quando a imobilidade não é satisfatória, somos livres para viajar”. E assim, fico imaginando como seria fértil um mundo sem fronteiras, onde as pessoas pudessem ir e vir, ficar e voltar quando bem quisessem...


7 comentários:

A Arte de Inha Bastos disse...

Querido amigo,Antonio
Surpreendente texto,muito bom.Vou passar para uma amiga(Artista Plástca) que mora em Londres a mais de vinte anos,creio que ela vai gostar muito!
Um abraço carinhoso

Jamil disse...

Maravilha, Nahud. Texto excelente, um guia da verdadeira Londres. A capa da revista também é muito boa.

LAU SIQUEIRA disse...

Muito bom, Antônio. Parabéns.

Reheniglei Rehem disse...

lido e apreciado :)

Lucas Galvão disse...

Excelente texto!!

tozzi disse...

Fabuloso texto, Nahud. Lembrei dos meus tempos em Londres bancando o turista óbvio.

Brenda Rosado disse...

Fiquei encantada com seu encontro com Doris Lessing, uma das minhas escritoras de cabeçeira. Que tal escrever um pouco mais sobre esse momento mágico?