maio 09, 2014

......................... COMO DIVULGAR SUA ARTE



Ilustrações:
BEATRIZ MILHAZES

O jornalismo cultural inteligente e justo quase não tem lugar na nossa sociedade. A maioria dos colunistas exibe seu próprio círculo social, num mundo restrito, de toma lá da cá. Muitas editorias dos cadernos de arte se submetem ao marketing provinciano de ídolos de outras terras, da sua gente mais íntima e de um ou outro inevitável artista nativo, pois seria desconfortável não valorizá-lo. Nessa triagem de favoritismos sem um civilizado código de ética, diversos talentos ficam de fora, soterrados no mau hábito jornalístico de levar desafetos e impressões pessoais para a redação, influenciando o patrão e sobressaindo interesses próprios. Se estivéssemos falando de profissionais de medicina, seria o mesmo que um médico se recusar a atender um paciente por não gostar da cara dele ou desprezar sua enfermidade. Então, o que fazer? Como mostrar a nossa arte ao público?


Hoje em dia se pode dar a volta por cima com um pouco de boa vontade. O truque é aprender a utilizar o universo virtual com sensibilidade, bom gosto, persistência e competência. Eu criei dois blogues, “O Falcão Maltes” e “Cinzas e Diamantes”, que atualmente são visitados diariamente por cerca de mil leitores. Utilizo a linha do tempo do Facebook e páginas anexas como colunas opinativas de arte, dialogando com milhares de mentes. Tenho mais de quatro mil pessoas no face, além de centenas nas páginas da Ícone, do Falcão e da minha literatura. O meu mailling list beira dez mil pessoas. Troco diariamente ideias com artistas de todo o mundo. Isso sacia minhas pequenas ambições artísticas.


Com o trabalho de marqueteiro da minha própria obra, levo um público digno aos meus eventos, vendo inúmeros livros pela net e sou convidado a mostrar o que faço noutras plagas. Acabou a tensão de ficar à espera da boa vontade da imprensa. Continuo mandando releases e fotografias, mas não me preocupo com o resultado, pois sei que terei público e o trabalho será comentado, abrindo caminhos para outros projetos culturais. Portanto, foi-se o tempo em que eu me magoava com a indiferença injusta de colegas. Afinal, geralmente o próprio jornalista que faz de conta que sua arte não existe será “forçado” a ler comentários sobre ela. Não tem como correr, o mundo virtual é cheio de labirintos e armadilhas. Uma boa lição, né? Além disso, ao ver sua criação comentada em redes sociais, o leitor estranhará que o mesmo não esteja no jornal que acompanha diariamente, perceberá algo marrom no fato, se sentirá usado e gradualmente se desgostará, até partir para outras leituras. Nesse raciocínio, deixei de ler incontáveis jornais, revistas e blogues. Nunca apreciei panelinhas e acho que jornalismo deve significar visão ampla, longe de mesquinhez ou listas negras.


Pintem, escrevam, dancem ou cantem estruturando sua arte num mundo mediático seu, caros artistas. Foi-se a época em que o artista somente criava. Hoje em dia, além de criar, ele precisa colocar sua arte debaixo do braço e ir à luta. Muitas vezes sem sair de casa, no próprio computador. Está claro que a boa e velha imprensa ou abre os olhos ou definha de vez. É visível que está perdendo o bonde; os cadernos culturais são cada vez mais raquíticos ou se extinguem, pois não se constrói uma reputação valorizando o óbvio. O correto seria páginas inteiras e manchetes dedicadas aos artistas locais, notinhas para celebridades que todo mundo sabe o que come e quem come, e riscar de vez o que não nos engrandece. Por exemplo, com que intenção um periódico nordestino gasta páginas falando do Festival de Cannes, da morte de famosos distantes ou sobre um best-seller norte-americano? Pura bobagem colonizada. O tipo de informação redundante, preguiçosa, que todo mundo já sabe, leu. Melhor seria se todo jornalista controlasse seus sentimentos controversos e resgatasse o mel do melhor da sua terra.


Nenhum comentário: