outubro 19, 2012

................................................................................ Os ALQUIMISTAS




Eu Sou Toth, o senhor dos dois cornos da Lua.
Minha escrita é perfeita e minhas mãos são puras.
Detesto o mal e aborreço a iniquidade.
Fixo com meus escritos a Justiça Divina.
Sou o pincel que o Deus do Universo utiliza.
Sou o mestre do direito e da lealdade,
O senhor da Verdade e da Justiça,
O que destrói a mentira e afirma a Verdade ante os Deuses
O LIVRO EGÍPCIO dos MORTOS - Livro 182

 
 
Do árabe “al-khemy”, ALQUIMIA quer dizer “a química”. Começou a se desenvolver por volta do século III a. C., em Alexandria, um centro de recriação das tradições gregas, pitagóricas, platônicas, estoica, egípcias e orientais, obtendo grande êxito na metalurgia, na produção de papiros e na aparelhagem de laboratórios, mas não conseguindo seu principal objetivo: a descoberta da pedra filosofal. Os preceitos e axiomas alquímicos encontram-se na misteriosa “Tábua Esmeraldina” (a esmeralda era considerada como a pedra preciosa mais formosa e mais cheia de simbolismo: “a flor do céu”), um dos quarenta e dois livros da doutrina hermética atribuídos a Hermes Trimegisto. Nascida em lenda e mistério, a ALQUIMIA usava fórmulas mágicas e invocava deuses e demônios. Muitos alquimistas foram acusados de pacto satânico, presos, excomungados ou queimados vivos pela Inquisição da Igreja Católica, na Idade Média. Por uma questão de sobrevivência, manuscritos alquímicos foram elaborados como poemas alegóricos, incompreensíveis aos não iniciados.

Unindo noções de química, física, astrologia, arte, metalurgia, medicina, misticismo e religião, a prática ancestral mais difundida da ALQUIMIA é a busca da “Pedra Filosofal”, mítica substância que teria o poder de transformar tudo em ouro e, mais ainda, de proporcionar a quem a encontrar, a vida eterna e a cura de todos os males. Segundo os estudiosos, porém, os valores alquímicos vão muito além. Suas metas são simbólicas, o que significa que na verdade seus praticantes visam algo maior: a transmutação espiritual. Assim sendo, o famoso elixir da longa vida nada mais seria que um recurso próprio do organismo humano, capaz de conceder àqueles que realizam o longo processo de purificação espiritual uma vida dilatada ao infinito. É também digno de registro descobertas feitas por alquimistas ao tentar atingir a “Pedra Filosofal: água-régia (mistura de ácido nítrico e clorídrico), arsênico, nitrato de prata, acetato de chumbo, bicarbonato de potássio, ácidos sulfúrico, clorídrico, canfórico, benzóico e nítrico, sulfato de sódio e de amônia, fósforo, a potassa cáustica (hidróxido de potássio, que permitia a fabricação de sabões), entre muitas outras descobertas. 
 
O processo alquímico é o principal trabalho dos alquimistas (frequentemente chamado de A Grande Obra). Trata-se da manipulação dos metais e da fabricação da “Pedra Filosofal”. As matérias-primas do processo alquímico são, entre outras, o orvalho, o sal, o mercúrio e o enxofre. De um modo geral, é descrito de forma velada usando-se uma complicada simbologia que inclui símbolos astrológicos, animais e figuras enigmáticas. O orvalho é utilizado para umedecer ou banhar a matéria-prima, o sal é o dissolvente universal. Os outros dois elementos, mercúrio e enxofre, são as principais matérias-primas da ALQUIMIA. O enxofre é o princípio fixo, ativo, masculino, que representa as propriedades de combustão e corrosão dos metais. O mercúrio é o princípio volátil, passivo, feminino, inerte. Ambos, combinados, formam o que os alquimistas descrevem como o “coito do Rei e da Rainha”. O sal, também conhecido por arsênico, é o meio de ligação entre o mercúrio e o enxofre, muitas vezes associado à energia vital, que une corpo e alma.
 
Embora não seja considerada uma ciência, e sim uma visão espiritual preocupada com antigas tradições, ela é consagrada como uma ancestral da química moderna e da própria medicina. Fonte inesgotável de fascínio e encantamento, intrigando profundamente sábios de todas as épocas e latitudes, levou grandes pensadores - como São Tomás de Aquino – a se dedicaram ao assunto. Tudo isto não significa, porém, que ela seja hoje um saber generalizado e facilmente acessível a todos, bem pelo contrário, continua tão obscura e enigmática como nos tempos remotos de Hermes Trismegisto ou Maria, a Profetisa, confundindo-se atualmente com a história de ordens herméticas, como os Rosa-cruzes. A psicologia moderna também incorporou muito da simbologia da ALQUIMIA. Carl Jung reexaminou a simbologia alquímica procurando mostrar o significado oculto destes símbolos e sua importância como um caminho espiritual. Mas com certeza a maior influência foi nas ciências ocultas. A arte alquímica inspirou numerosos livros, mas nenhum deles tem uma linguagem fácil. Diz-se que esses textos ocultam segredos, pois enquanto que os versados conseguem discernir o seu significado, os leigos não veem senão amontoados desconexos de palavras: para além dos símbolos alquímicos, como o “Leão Verde” ou o “Ouroboros”, abundam os enigmas e os trocadilhos.
 
Essa busca pela “Pedra Filosofal” é, em certo sentido, semelhante à busca pelo “Santo Graal” das lendas arturianas, ressalvando-se que as lendas arturianas não são escritos alquímicos. Em seu romance “Parsifal”, escrito entre os anos de 1210 e 1220, Wolfram von Eschenbach associa o Santo Graal não a um cálice, mas a uma pedra que teria sido enviada dos céus por seres celestiais e teria poderes inimagináveis. Também na cultura islâmica desempenha papel importante uma pedra, chamada “Hajar el Aswad”, que é guardada dentro de uma construção chamada de Kaaba, considerada sagrada, tornando-se objeto de culto em Meca. Talvez uma das mais interessantes ideias dos alquimistas seja a criação de vida humana a partir de materiais inanimados. Não se pode duvidar da influência que a tradição judaica teve neste aspecto, pois na cabala existe a possibilidade de dar vida a um ser artificial, o Golem. O conceito do homúnculo (do latim homunculus, pequeno homem) foi usado pela primeira vez por Paracelso para designar uma criatura que tinha cerca de 12 polegadas de altura e que poderia ser criada por meio de sêmen humano aquecido em esterco de cavalo durante 40 dias. Então, formaria-se o embrião. 

Outro alquimista famoso que tentou criar o Homunculus foi Johanned Konrad Dippel, que utilizava técnicas bizarras como fecundar ovos de galinha com sêmen humano e tapar o orifício com sangue de menstruação. Podemos observar que esta ideia dos alquimistas ficou profundamente marcada na consciência da humanidade, e tem aparecido regularmente no imaginário popular, na forma de monstros, como nos mangás japoneses ou no mais famoso deles, Frankenstein, da obra literária de Mary Shelley. Atualmente, a ALQUIMIA se evidencia em best-sellers como a série de livros “Harry Potter” (1998 - 2007) ou o “O Código da Vinci” (2003). Paulo Coelho publicou o “O Alquimista” (1988). Acima de tudo, deixou uma mensagem poderosa: a busca da perfeição. Em um mundo tomado pelo culto ao dinheiro a à aparência, pouco preocupado com o mais íntimo, as vozes dos antigos alquimistas aparecem como um chamado para que o homem reencontre seu lado espiritual e superior; ou a que, na mais simples das análises, tenha um qualquer objetivo na vida.
 
pieter bruegel

ALGUMAS das PRINCIPAIS OBRAS de ALQUIMIA

“Anfiteatro da Sabedoria Eterna” (1609)
de Heinrich Khunrath

“O Arcano Hermético” (1623)
de Jean d'Espagnet

“Aurora Consurgens” (Séc. XV)
de São Tomás de Aquino

“A Aurora dos Filósofos” (1577)
de Paracelso

“Baopuzi” (331)
de Ge Hong

“A Carruagem Triunfal do Antimônio” (Séc. XV)
de Basilio Valentim

“Coelum Philosophorum” (1525)
de Paracelso

“A Fabricação de Ouro” (1627)
de Francis Bacon

“O Parentesco dos Três” (142 d. C.)
de Wei Boyang

“As Seis Chaves” (Séc. XVII)
de Eudoxus de Cnido

“Tabula de Esmeralda” (1541)
de Hermes Trismegistus

“Teorias e Símbolos dos Alquimistas” (1891)
de Albert Poisson

“O Tesouro dos Alquimistas” (1973)
de Jacques Sadoul

“O Tratado Dourado” (1 d. C.)
de Hermes Trismegistus
 

outubro 06, 2012

............................................................... Das SOMBRAS: HILDA HILST




Das SOMBRAS
fragmento do 2º Ato
peça de ANTONIO NAHUD


“Se as portas da percepção se purificassem,
cada coisa apareceria ao homem 
tal como é, infinita”
WILLIAM BLAKE

 

 HILDA (Bebendo e fumando) Tenho pouquíssimos amigos, pessoas de quem gosto realmente são raras. Há coisas que nos vem à mão, há vidas com muita sorte, a minha, por exemplo, mas também fiz velhacarias, nunca tive afeição ao dinheiro, só que se o homem a quem eu amava era rico, eu dizia que queria casa dinheiro jóias champagne. Sem problemas, sem remorsos. Quando digo velhacarias quero dizer que são consideradas assim no entender dos outros. Eu achava normalíssimo que um homem rico me desse dinheiro porque ainda era muito pouco, ainda que fosse muito o dinheiro, para o ouro que sou como gente, entende? Claro que tive a sorte de ter amantes muito ricos, e pai e mãe com algum dinheiro, e ainda heranças. Claro que fui muito auxiliada pelas fadas, mas também tive horas chatas demais, onde tinha de fazer a mais maravilhosa amante e estava louca para soltar uns bons peidos e coçar as canelas. Se fosse pobre daria um jeito de conseguir dinheiro de qualquer maneira, menos matando, porque não mato nem mosca nem barata nem nada. Mas arranjaria. Não sei por que falo sobre estas recordações mortas. Sei que me foi dada essa coisa tão difícil que é o saber escrever, o sentir agudo para curtir o de dentro, a vida muito funda. Pausas só quando acabo um livro, aí tomo porres, fico besta, brinco de mundana, como ontem quando me vesti como uma princesa, com um antigo modelo Denner, chamei um táxi e fui para um desses inferninhos de beira de estrada bossa rudes motoristas de caminhão e vagabundas decadentes. Fiquei tomando um uísque barato no balcão e toda a fauna me olhava pelos cantos dos olhos, ninguém se aproximava. Sorri para um homenzarrão tipo Rivelino, mas que não parecia pederasta como este, e perguntei: “O que pensa do tempo perdido de Proust?”. Nada respondeu, óbvio, e apertou a minha mão com força e virou boca adentro o pequeno copo de conhaque, de um só gole, depois pediu café, coca-cola e outro conhaque. Voltei para casa naquele monstruoso automóvel carregado de abacaxis. Ele apenas perguntou, A madame é casada?. Madame? Madame do cu. Estou ficando louca varrida. Mas na hora de escrever não tem quem me faça perder a cabeça, ninguém, nem nada, e na verdade só tenho a ver com quem escreve, com os bichos também. Sou mais bicho que gente, um bicho raro que escreve.


(Abre um champagne, serve-se. Dança languidamente sem música, sofrida e solitária.)

setembro 18, 2012

..................... “PEQUENAS HISTÓRIAS...” na TRIBUNA do NORTE


 
 
TOQUE – LIVROS e CULTURA

por CARLOS DE SOUZA
Jornal Tribuna do Norte (RN)
05 de Setembro de 2012

TRÊS POTIGUARES com ESTILOS DIFERENTES

Volto a comentar hoje, com muito prazer, alguns autores potiguares. Vou começar por este PEQUENAS HISTÓRIAS do DELÍRIO PECULIAR HUMANO, de Antonio Nahud, Editora Falcão Maltês, 154 páginas, sem preço definido. Para começo de conversa digo que este rapaz sabe escrever. Calejado pela sua vivência no jornalismo, cunha frases curtas, textos curtos, certeiros. Seu mundo é o mundo do cinema e da literatura, estão lá todas as referências, podem conferir. Sugiro que comecem a ler o livro pelo conto “Um Mundo Claro, Um Mundo Escuro”. Não, comecem pelo início mesmo. A literatura de Antonio Nahud é aquela que mostra as mazelas do mundo, o lado negro do ser humano, toda sua dor e todo o seu desespero. E por que não dizer nosso lado? Álcool, drogas, vômitos, estupro são alguns elementos, mas principalmente a insuportável solidão humana. De vez em quando, o autor se solta de suas amarras referenciais e joga-se no encantamento, no fantástico, no maravilhoso. São contos escritos com mão de mestre, podem acreditar. Vejam por exemplo este conto intitulado “Rumo à Felicidade”: “Numa noite densa, o idoso centauro paterno surgiu inesperadamente e a levou para o seu barco prateado. Quando o gigantesco pássaro despertou, seguiu-se uma busca incessante, num canto arrepiante acima das ondas, provocando tempestades, raios e trovões”. Estou mentindo? Bem, no início eu disse que ia falar de autores potiguares, mas Antonio Nahud é muito mais que isso. Seus contos são cosmopolitas, viajam pelo mundo e seus personagens são universais. Fico feliz que ele esteja fazendo poesia em forma de prosa. Ultimamente ando muito desconfiado de poetas. A única coisa que não gostei no livro foi a edição. Merecia uma capa mais profissional e um papel que não fosse esse desagradável papel reciclado.

Tenho aqui em minhas mãos este “Intuitor Bianor - Um Homem de Palavra”, de Tião Carneiro, Editora Protexto, 315 páginas, sem preço definido. Não é o primeiro livro deste autor que tenho a oportunidade de ler. Percebo uma coisa, isso pode ser tudo, menos literatura. O autor se compraz em contar casos, quase sempre de amor, relacionamentos, conversas intermináveis num papo arrastado que parece nunca ter fim. Não há Pathos, conflito, tragédia, clímax na trama. Aliás, não vi trama alguma. É como um rio de palavras que bóiam como pedaços de destroços numa enxurrada. Não há qualquer questionamento filosófico diante da existência humana. Tenho certeza que Tião Carneiro se diverte demais escrevendo esses livros (já li seus textos também no Substantivo Plural). Seus amigos também devem se divertir muito, alguns talvez até sejam retratados ali de uma forma ou de outra. E se você já está aí babando de satisfação com esse meu comentário, digo logo que não vou desestimulá-lo no prazer da escrita. Espero que ele continue fazendo seus livros e que um dia eu possa apreciar um trabalho dele. E olha que esses dois livros dele que tomei conhecimento são dois calhamaços. Espero também que eu esteja errado em minhas observações, porque muita gente também torceu o nariz quando tomou conhecimento dos sete volumes de “Em Busca do Tempo Perdido”, de Proust. Não estou aqui fazendo comparações. Estou apenas me precavendo do implacável juízo do tempo. Imagino o horror que foi a primeira leitura do Ulysses, de James Joyce. Mas aí há Pathos, há trama, sim. E há tragédia, a velha tragédia humana que nos acompanha através dos tempos, desde os gregos. Sinceramente, não consigo ler a prosa do nosso amigo Tião Carneiro. Desculpe.

Este livro que vou comentar agora é dirigido para um público específico e digo de antemão que não entendo nada do assunto, mas ao folhear suas páginas encontrei alguns momentos que merecem um pouco de atenção. “A Tragicomédia da Medicalização - A Psiquiatria e a Morte do Sujeito”, de José Ramos Coelho, Editora Sapiens, 146 páginas, R$30,00. Quero primeiro apresentar o autor. José Ramos Coelho é filósofo, multiartista, doutor em psicologia clínica e terapeuta holístico. É autor dos seguintes livros: “A Colina e o Abismo” (1978), em co-autoria com José Paulo de Melo Cabral; “A Magia na Aldeia Global” (1985); “De Narciso a Édipo: a Criação do Artista” (2005) e “A Terapia da Excelência: Uma Introdução ao Método da Estética Existencial” (2007). Investiga, atualmente, temas ligados à formação do sujeito, saúde e espiritualidade, participando há anos dos workshops e encontros promovidos pelo Sapiens. Pois bem, o que José Ramos Coelho quer neste seu novo livro (pelo menos foi o que deduzi de uma leitura rápida) é mostrar que o uso indiscriminado da psiquiatria no mundo moderno está causando um aumento substancial nos índices de pessoas classificadas como doentes mentais. Como dizem na web, é isso produção? Então ele faz uma série de perguntas básicas: esse aumento "é motivado por um estreitamento nos orifícios da rede classificatória do discurso médico-psiquiátrico que agora pega qualquer um? O que está por trás dessa pesca de arrastão? Como ela opera? Como as pessoas se deixam aprisionar imaginando serem acolhidas?"

São essas perguntas que José Ramos Coelho tenta responder, através de sua erudição, para os leitores que se interessam pelo assunto. Eu li coisas aqui que me deixaram arrepiado, podem acreditar. A proposta da medicalização da vida é tirar de cena a tragédia da existência, substituindo-a pela tragédia da morte do sujeito. A proposta da estética da existência é conclamar o sujeito a assumir tudo aquilo que o constitui e o caracteriza enquanto ser humano criativo, sensível e único. Realmente, este livro bota a gente para pensar e acho que esta é uma das funções dos livros.

foto de morvan frança

setembro 10, 2012

............... O NOVO SEMPRE vem – ELEIÇÕES 2012 em ITABUNA



 
Ilustações: 
GUILLERMO PÉREZ VILLATA


Deixei de votar em Itabuna, transferindo o título eleitoral para Natal, a cidade onde vivo nos últimos dois anos e meio. De certa forma, não deixa de ser um alívio, andava cansado da antigas e inférteis disputas políticas à moda antiga. Os anos passaram e a situação política local vem mudando, abrindo caminhos para outras contendas. Fernando, praticamente aposentado, usufrui seus milhões. Dentro de poucas décadas, será como outros homens públicos que um dia iludiram o eleitor, ou seja, soterrado na poeira do tempo. Geraldo, também enriqueceu fazendo política. Ele finge não perceber que a máscara caiu e rola ladeira abaixo. Perde milhares de votos a cada eleição. Inconformado, sem prestígio e impedido de disputar as eleições municipais devido à ficha suja, tenta que o itabunense engula a qualquer custo sua nada carismática esposa, numa insistente forçação de barra. A derrota é evidente, e esse panorama traduz uma certa esperança: a ribalta para os novatos. O novo é sempre bem vindo, até que prove que nada tenha a acrescentar de benéfico. De fato, há ocasiões em que nos sentimos impotentes, ao vermos triunfar as nulidades ou desfilarem diante de nós essas figurinhas carimbadas que não supúnhamos que tivessem o descaramento necessário para candidatarem-se ou investirem em familiares, como se vivêssemos numa monarquia. Nesses momentos de nossas existências se instalam o cansaço e o esmorecimento morais, diante da mediocridade quase sempre vencedora, por ser numerosa, organizada, expansiva, subserviente, comprometida, persistente, camaleônica e indubitavelmente doutorada em jogo de cintura. É desanimador ver expoentes jubilados em corrupção continuarem no páreo com possibilidades eleitorais. Que expectativa, enfim, podemos ter se vemos a impunidade e a omissão prosperarem, e corruptos, na maciota, à sombra de candidaturas? Itabuna está a ver navios, sob o comando de salvadores da pátria de araque, desfrutadores do dinheiro público que enriquecem sem fazer força, apenas pilotando mandatos.
 

Felizmente, vê-se uma luz no fim do túnel: o PT em maré baixa e novos políticos na praça. Percebi isso claramente nos recentes dias de agosto passados em Itabuna. De longe, avistei uma frouxa caminhada da candidata de Geraldo. Constrangedor. Lembrei-me imediatamente de outros tempos fervorosos, marcados pela claquete apaixonada da Direc 7 e a empolgação partidária do PCdoB. Tempos que dificilmente retornarão. A candidata está sendo explicitamente rejeitada. O povo parece que tomou consciência da farsa de Geraldo. A presença de Juçara também não contribui para imprimir confiança ao eleitorado. Conformada em ser fantoche, repercute tão mal que os marqueteiros de plantão tentam mascará-la como uma dama de voz suave, educação ímpar, coração aberto e generoso. O teatro não funciona numa cidade pequena. Todos conhecem ou já ouviram falar dos modos e rompantes temperamentais de dona Juçara. Conversando com um moto-boy, perguntei em quem ele iria votar. “Só sei em quem não votarei de jeito nenhum: Juçara”, respondeu com convicção. Fiquei curioso, procurando saber o motivo da aversão. “Tá vendo essa mulher educada na propaganda eleitoral, dizendo que ama Itabuna? É armação. No tempo do Viva Maria fui procurá-la, pois soube que estavam distribuindo enxovais para recém-nascidos e meu primeiro filho havia acabado de nascer. Não fui atendido, mas resolvi falar com ela de qualquer jeito e fiquei horas esperando até que ela deu as caras. Então, eu disse humildemente: ‘Dona Juçara, sou pobre, estou desempregado, meu filho acaba de nascer e preciso de um enxoval’. De cara fechada, ela respondeu na maior grosseria: ‘Quando você fez o filho veio pedir a minha ajuda?’. E virou as costas. Fiquei com lágrimas nos olhos. Todo mundo olhando pra mim. Depois disso, ninguém na minha família vota em Geraldo ou nela nem morto”.

Continuei a pesquisa pessoal. Todos que eu perguntava em quem iria votar respondiam Vane ou Azevedo. Até mesmo gente do próprio Partido dos trabalhadores (alguns da cúpula ou da fundação do Partido). Parece que Geraldo será absolutamente derrotado em sua pretensão eleitoral. Bem feito, a bem dizer, ele, de alguma forma, traiu e pisoteou muita gente. Fiquei com pena da amiga Acácia Pinho como vice, envergonhada na chapa de um farsante vestido de suspeição e maracutaias. Ela bem que podia dispensar-se dessa companhia sem  luz e sem mais o gozo da preferência popular. Foi uma costura malfeita, desagradando ao senso dos cidadãos. Acácia deve estar sofrendo o impacto da insatisfação daqueles que têm reserva quanto à candidatura de Juçara. Sabemos que é um conchavo, um arranjo que a submete a comer uma fatia do bolo sem sabor. Coadjuvante, enfim, de um grupo político leproso. De fato, sinto a náusea de existir num mundo em que a corrupção e a hipocrisia fazem festa, mas não perco a esperança. A queda de Geraldo Simões representa que nem tudo está ao Deus-dará. É o povo grapiúna se rebelando contra o abandono e a incúria, a ganância e a usura. Audaz, vai se arriscar em novos nomes para a prefeitura da machucada Itabuna. De coração, fico feliz com a evidente derrota de Geraldo e os novos tempos que virão nas Terras do sem fim.


setembro 03, 2012

..................... PELOS CAMINHOS das “PEQUENAS HISTÓRIAS...”


 
 
Passei 15 dias viajando, lançando o livro de contos PEQUENAS HISTÓRIAS do DELÍRIO PECULIAR em algumas cidades. Foi uma viagem mágica, de reencontros e novos conhecimentos. Terminei sem  nenhum dos meus cartões de visita. Em Salvador, as amorosas amigas Fahda e Claire Maron comandaram o espetáculo no espaço Água de Gruta, numa noitada íntima, resgatando amigos que eu não via há muito tempo. Em Itabuna, o evento apoiado pela ACATE (Associação dos Amigos do Teatro) e AGRAL (Academia Grapiúna de Letras) reuniu um grande público, entre escritores, poetas, jornalistas, professores e artistas. Acompanhando os lançamentos, a exposição fotográfica A FACE OCULTA, de Morvan França. Vibrei com o repertório musical de clássicos da MPB interpretado por Carlos Santana na Sala Zélia Lessa, o bate-papo num programa de rádio com Ederivaldo Benedito e Adylson Machado e com as entrevistas de tevê com Viviane Carvalho no programa “Hoje em Foco” (TV Itabuna) e Roger Sarmento no telejornal da TV Santa Cruz. Agradeço ao empenho dos produtores culturais Ari Rodrigues e Eva Lima, a imprensa e a todos que compareceram aos eventos. Axé!

IMAGENS
de Edmundo Amorim, Igor Maron 
e Ari Rodrigues

eu e o jornalista valério de magalhães
ari rodrigues, eva lima, eu, fernando caldas e ramon vane
eu e a artista plástica conceição portela

a produtora cultural irá carvalho e eu


izabel cristina sena e eu
eu, eva lima e gustavo lisboa
claire maron, eu e fahda maron
eu e a professora de literatura da uesc tica simões
eu e o jornalista daniel thame
eu, fahda e igor
eu e nilson mendes
paula, eu e luciana conti


eu e marcelle maron
roberta reis, eu e anna áurea mendonça
elson rosário e eu
eu e fahda maron
edmundo amorim, eu e irá carvalho
eu, izabel cristina sena e ivan montenegro

agosto 07, 2012

................................................................................... FLORES de FUEGO




 
O que já passou não existe, dificultando a narrativa de emoções antigas. Algumas vezes a memória se enamora do artificial, do fake, inventando existências. Mas é sempre bom recordar. Hoje passei o dia lembrando o mês que passei em Cuba, em 2003. As recordações de Havana e Varadero continuam autênticas. O primeiro impacto foi assustador. Casarões da época da colônia hispânica em ruínas, chulos, muambeiros, degradação, ícones do comunismo. Como se a ilha fosse o cenário de uma batalha terrível. Não adianta se refugiar num dos luxuosos hotéis canadenses ou espanhóis, planejando um roteiro de turista aprendiz. É preciso observar Cuba com compaixão. Em Havana, pasmo, enfrentei o sol de outubro, ouvindo notícias nos telejornais sobre a aproximação do Furacão Irene. Aturdido, bati perna pelas ruas sujas, deixando o hotel em Miramar, um bairro dos ricos antes da Revolução, nos tempos de Fulgêncio Baptista. No centro, o tumulto, num ritmo de improviso. Som de cânticos. Espanhóis, alemães, guias, ruas estreitas cobertas de artesanato popular, telas coloridíssimas e músicos afinados cantando salsas - percebi imediatamente que a música faz parte da vida do cubano. Fotografei velhos carros norte-americanos - cadillacs, buicks ou bel-airs - e mulheres vestidas de branco, jogando búzios ou cartas, com charutos na boca. Insolente, perguntei a uma delas se podia fotografá-la. Respondeu: “Un dólar,¡muchacho!”. Paguei, tirei fotos e atravessei a praça da catedral barroca, emocionando-me quando uma idosa, de mais de 80 anos, levantou os braços magros em prece e sorriu. Aproximei-me, recebendo um santinho com a frase “Jesús en vos confío”. Desviei-me de um gordo que vendia flores, de uma charrete com um cavalo portando chapéu com fitas vermelhas, de bicicletas pedaladas por rapazes bonitos. Na varanda de um casarão habitado por inúmeras famílias, um Cristo adornado por flores minúsculas.

No hotel Ambos Mundos, onde Ernest Hemingway morou na década de 30, provei mojitos - bebida à base de rum, limão, hortelã e pimenta -, enquanto a pianista tocava um bolero de Nat King Cole. Através da vidraça, nativos de sorriso rasgado; o espetáculo de carros dos anos 40 e 50 ziguezagueando entre lentos animais; ônibus compridos e desconfortáveis cheios demais; prédios sórdidos e vistosos; putas jovens e sensuais - um museu vivo! Nada falta para o estrangeiro atônito: um mar azul-turquesa, uma história sórdida, um presente agonizante e aquele ar pouco convincente de felicidade. Então, o céu explodiu em fogos de artifício, como flores em chamas, enquanto conversava com um cubano.  Ele me falou de como aprecia as telenovelas brasileiras, mostrando uma fotografia de Regina Duarte na parede do bar-restaurante La Bodeguita del Medio. No entanto, não é permitido conversar muito tempo com o povo, nem fotografar militares. Numa casa de charutos, comprei Cohiba, acendendo um deles no El Floridita, aprendendo que fumar habanos é uma fonte de prazer, e sem deixar de pensar que podia estar sentado na mesma cadeira que um dia Ava Gardner ou Gary Cooper descansaram o traseiro. Tomei daiquiris conversando com o barman-chefe vaidoso de seus broches na lapela. Fugindo do turismo banal, lembrei-me de Paul Bowles dizendo “não sou turista, sou um viajante”. Assim também pensa o chileno Luis Sepúlveda, e penso eu. Os turistas são uma espécie de gafanhoto devorando tudo por onde passam. Feitos em série, inexpressivos, numa relação monótona com a vida. Não há espírito, não há fé. Prefiro estar no meio dos suburbanos, dos alternativos, dos santos, dos poetas, dos boêmios. Por fim, escaldado pelo calor e pela miséria, perguntei-me onde se esconde o desenvolvimento de Cuba? O suor me abraçava como monstro pegajoso. Ao anoitecer ouvi boleros no cabaré Dos Gardénias, depois estive no Palácio de La Rumba. Amanhecendo, curei a ressaca ao lado de pescadores, lendo um Carpentier, já que Cabrera Infante e Reinaldo Arenas são proibidos. De qualquer maneira, não pretendo jamais voltar a Cuba.