julho 12, 2015

.................................. WALT WHITMAN – CANÇÃO DE MIM MESMO



“Eu me contradigo ?
Pois muito bem, eu me contradigo,
Sou amplo, contenho multidões”

Ilustrações: JOHN SLOAN


Poeta da nação, do povo, da vida vivida a céu aberto, no campo ou embalada pela brisa dos mares. Na avaliação de Jorge de Sena, “o maior poeta da América, e um dos mais originais e corajosos poetas líricos da poesia universal”. “Toda revolução digna deste nome produz seu grande poeta. O poeta capta, nos tempos de comoção social, a tremenda energia vital liberada pelas grandes transformações coletivas, em seu momento agudo, revolucionário ou insurrecional. Assim, se Maiakovski é o poeta da Revolução Russa, não é exagero dizer que WALT WHITMAN (1819-1892) é o poeta da Revolução Americana, ocorrida uma geração (1776) antes do seu nascimento. O fato de as revoluções apodrecerem, por mais altos que sejam seus ideais, pouco afeta a poesia dos que se exaltaram, por elas exaltados, em seu momento puro”, escreveu Paulo Leminski.

walt whitman
Um bom texto de Carlos Machado, no blog Alguma Poesia, faz um apanhado preciso da trajetória do poeta. Em 1857, na França, Charles Baudelaire lançou a primeira edição de seu revolucionário “Flores do Mal / Les Fleus du Mal”, livro que lhe valeria o título de primeiro poeta moderno. Dois anos antes, no outro lado do Atlântico, o jornalista norte-americano WALT WHITMAN, lançara “Folhas de Relva / Leaves of Grass”, outro livro de poemas igualmente ousado e inovador. Entre os franceses, o livro de Baudelaire causou escândalo. As “Flores do Mal” brotavam na contramão do bom-gosto vigente, trazendo para a poesia temas proibidos, como o sexo, a morte e a decadência humana. Uma coletânea em que o primeiro poema chamava o leitor de hipócrita. Com as “Folhas de Relva” não foi muito diferente. Mas, em certos aspectos, o impacto pareceu ainda maior. “Isso não é um livro; quem toca neste livro, toca em um homem”, afirmaria o poeta, sempre intenso, sempre grandiloquente.

“Folhas de Relva” foi o único livro de poesia do bardo. Ao longo da vida, ele reescreveu os poemas da primeira edição, acrescentou numerosos outros, mas o volume manteve sempre o título original. A última edição ampliada seria publicada em 1892, a edição que hoje circula pelas livrarias do mundo, uma obra colossal com mais de uma centena de versos. Numa ousada independência de toda a tradição literária europeia de seu tempo, o poeta possui sua própria voz, seus próprios temas, sentimentos independentes, e mais do que tudo, utiliza uma linguagem poética também inovadora, inaugurando uma forma poética livre e multiforme que só se popularizaria no cenário da poesia mundial cerca de meio século mais tarde, com o advento dos modernismos literários do século XX. 

Utiliza em seu vocabulário poético as gírias e expressões coloquiais empregadas no cotidiano, palavras pronunciadas não pela elite intelectual do país, mas pela população pobre. WALT WHITMAN também colocava em prática seu desejo de abolir as barreiras entre a poesia e a prosa, desenvolvendo um idioma poético sem rimas, em versos longos, com linhas intermináveis, versos livres, nunca vistos até então, em poemas declamatórios, arrebatados e apaixonados, sempre otimistas, cantando as belezas da paisagem e da população da grande e jovem nação à qual pertencia.

Sua obra, porém, permaneceu em grande medida desconhecida, e só começou a ser redescoberta na virada do século XX, ficando consagrada apenas em torno de 1920, com o advento do modernismo. Aí sim seus inovadores versos livres influenciariam toda a tradição poética moderna norte-americana, como Ezra Pound, Gertrude Stein, William Carlos Williams e Allen Ginsberg. Referência universal, sua poesia também influenciou muitos poetas no Brasil, entre os quais modernistas de primeira grandeza como Jorge de Lima, Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade e também figuras mais recentes como Paulo Leminski e Ana Cristina César.


Ando relendo os belos versos de WALT WHITMAN. O poeta inspirou Fernando Pessoa, e ficou mais conhecido do grande público por ter seu poema “Ó Capitão! meu Capitão!” em destaque no famoso filme “Sociedade dos Poetas Mortos / Dead Poets Society” (1989). Em 1873, ele sofreu um ataque que o aleijou. Retirou-se então para Camden, Nova Jersey, onde passou a morar na casa do irmão. Cultivando uma longa barba profética, tornou-se um dos patriarcas e sábios da nascente cultura norte-americana. Lá morreu em 26 de março de 1892. Mas se o leitor abrir as páginas da maior parte da poesia atual, bem como boa parte da prosa de hoje, facilmente verificará que o velho Walt continua por aí, vivíssimo.

Um abraço, e até a próxima. Cedo a voz ao grande poeta andarilho.

Tradução dos Poemas: ADRIANO SCANDOLARA

walt whitman
A BASE DE TODA METAFÍSICA

E agora, senhores,
Uma palavra eu lhes dou para permanecer em suas memórias e mentes,
Como base, e fim também, de toda metafísica.

(Também, para os alunos, o velho professor,
No final de seu curso apinhado.)

Tendo estudado o novo e o antigo, os sistemas grego e alemão,
Kant tendo estudado e exposto – Fichte e Schelling e Hegel,
Exposto o saber de Platão – e Sócrates, maior que Platão,
E maior que Sócrates buscado e exposto – Cristo divino tenho muito estudado,
Eu vejo reminiscentes hoje aqueles sistemas grego e alemão,
Vejo as filosofias todas – igrejas cristãs e princípios, vejo,
Sob Sócrates claramente vejo – e sob Cristo o divino eu vejo,
O caro amor do homem pelo seu camarada – a atração de amigo por amigo,
Do marido bem-casado e a esposa mãe de crianças e os pais,
De cidade por cidade, e terra por terra.


A UM ESTRANHO

Estranho que passa! você não sabe com quanta saudade eu lhe olho,
Você deve ser aquele a quem procuro, ou aquela a quem procuro, (isso me vem, como em um sonho,)
Vivi com certeza uma vida alegre com você em algum lugar,
Tudo é relembrado neste relance, fluído, afeiçoado, casto, maduro,
Você cresceu comigo, foi um menino comigo, ou uma menina comigo,
Eu comi com você e dormi com você – seu corpo se tornou não apenas seu, nem deixou o meu corpo somente meu,
Você me deu o prazer de seus olhos, rosto, carne, enquanto passamos – você tomou de minha barba, peito, mãos, em retorno,
Eu não devo falar com você – devo pensar em você quando sentar-me sozinho, ou acordar sozinho à noite,
Eu devo esperar – não duvido que lhe reencontrarei,
Eu devo garantir que não irei lhe perder.


A VOCÊ

Estranho! se, ao passar, você me encontrar e desejar falar comigo, por que não falar comigo?
E por que eu não falaria com você?


ÀS VEZES COM ALGUÉM QUE AMO

Às vezes com alguém que amo, me encho de fúria, pelo medo de extravasar amor sem retorno;
Mas agora penso não haver amor sem retorno – o pagamento é certo, de um jeito ou de outro;
(Eu amei certa pessoa ardentemente, e meu amor não teve retorno;
No entanto, disso escrevi estas canções.)


AO QUE FOI CRUCIFICADO

Meu espírito está com o teu, caro irmão,
Não te importes porque tantos, dizendo teu nome, não te compreendem;
Eu não digo teu nome, mas te compreendo (há outros também;)
Eu te especifico com graça, Ó, meu camarada, para saudar a ti e saudar àqueles que estão contigo, antes e depois – e aos que virão também,
Todos nós labutamos juntos, transmitindo o mesmo fardo e sucessão;
Nós poucos, iguais, indiferindo a terra, indiferindo o tempo;
Nós, que cingimos todo continente, toda casta – permitindo toda teologia,
Compaixonados, perceptivos, em harmonia com os homens,
Nós andamos silentes entre disputas e asserções, sem rejeitar os que disputam, nem o que é assertido;
Nós ouvimos berros e barulhos – somos tocados por divisões, ciúmes, recriminações por todo lado,
Eles se fecham peremptoriamente sobre nós, para cercar-nos, meu camarada,
No entanto andamos irrestritos, livres, por todo o mundo, em jornada por alto ou baixo, até deixarmos nossa marca indelével sobre o tempo e diversas eras,
Até saturarmos o tempo e as eras, que os homens e mulheres de raças e eras por vir, possam provar-se como nossos irmãos e amantes, como nós somos.


CIDADE DE ORGIAS

Cidade de orgias, passarelas e gozos!
Cidade em quem vivi e cantei em seu meio, que um dia farei ilustre,
Não os seus pajens – não são seus tableaux inconstantes, seus espetáculos que me compensam;
Não as suas fileiras intermináveis de casas – não os navios nos cais,
Não suas procissões nas ruas, nem suas claras janelas, com suas mercadorias;
Nem dialogar com pessoas instruídas, ou trazer a minha parte na festa ou banquete;
Não isso – mas, enquanto passo, Ó, Manhattan! seu relâmpago frequente e ligeiro de olhos que me oferecem amor,
Que oferecem resposta ao meu próprio – estes me compensam;
Amantes, contínuos amantes, apenas, me compensam.


AO JARDIM, O MUNDO

Ao jardim, o mundo, renovado em ascensão,
Parceiros potentes, filhas, filhos, em prelúdio,
O amor, a vida de seus corpos, ser e sentido,
Curioso, contemple aqui minha ressurreição, após o sono;
Os ciclos em revolução, em seu amplo movimento, aqui me trouxeram outra vez,
Amoroso, maduro – tudo belo para mim – tudo maravilhoso;
Meus membros, e o fogo trêmulo que folga neles, pelos mais maravilhosos motivos;
Existindo, eu perscruto e penetro ainda,
Contente com o presente – contente com o passado,
Ao meu lado, ou atrás de mim, Eva me seguindo,
Ou à frente, e eu a segui-la do mesmo jeito.


VINDA DO OCEANO REVOLTO, A MULTIDÃO

1

Vinda do oceano revolto, a multidão, chegou suave a mim uma gota,
Sussurrando, eu te amo, antes que um dia eu morra,
Fiz uma longa viagem, para meramente te ver, te tocar,
Pois eu não podia morrer até eu te ver uma vez,
Pois eu temia poder depois te perder.

2

(Agora nos conhecemos, nos vimos, estamos seguros;
Retorne em paz ao oceano, meu amor;
Sou também parte deste oceano, meu amor – nós não estamos tão separados;
Contemple a grande curvatura – a coesão de tudo, como é perfeita!
Mas, quanto a mim, a você, o irresistível mar irá nos separar,
A hora nos carrega, distintos – mas não pode nos carregar assim para sempre;
Não seja impaciente – por um pequeno espaço – Eu te conheço, eu saúdo o ar, o oceano e a terra,
Todo dia, no ocaso, por você, meu amor.)


ERAS E ERAS, RETORNANDO EM INTERVALOS

Eras e eras, retornando em intervalos,
Invulnerado, imortal errante,
Luxurioso, fálico, com lombos potentes e originais, perfeitamente suave,
Eu, entoador de canções Adâmicas,
Pelo novo jardim, o Ocidente, o chamado das grandes cidades,
Em delírio, preludio assim o que é gerado, oferecendo isso e oferecendo a mim mesmo,
Banhando-me, banhando minhas canções em Sexo,
Rebentos de meus lombos.


FEITO ADÃO, DE MANHÃ CEDO

Feito Adão, de manhã cedo,
Saindo de sob os galhos, renovado de sono;
Contemplem-me enquanto passo – ouçam-me a voz – aproximem-se,
Toquem-me – toquem com a palma da mão meu Corpo enquanto passo;
Não tenham medo do meu Corpo.



9 comentários:

Thais Negrão Furini disse...

amo de paixão

Wilma Regina Ciasca disse...

Simplesmente, comovente!!!...

Nanci Santos Lima disse...

Adoro seu jeito de escrever. Parabens e sucesso.

Natália Medeiros disse...

que lindo!!!

Eliane Paiva disse...

Já dizia Clarice Lispector: ''.Que minha solidão me sirva de companhia, que eu tenha a coragem de me enfrentar, que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.''
Adoro tudo o que você escreve Nahud!

Ana Martins disse...

Eu amo teu trabalho, te admiro demais...demais. Obrigada sempre por nos transmitir tanta coisa boa, através da tua escrita...meu coração pra vc...um bjo querido...

Kátia Regina Lage disse...

O Máximo!

Lucimara Rocha disse...

Parabéns!!!

Maria Celeste Queiroz Pacheco disse...

Belo poeta!Belo blog!