julho 30, 2017

........................... O REALISMO SUJO de JOHN FANTE



ESCRITA, BEBIDA e SOBREVIVÊNCIA

Siempre es así. Cuando crees que la tierra está exclusivamente
poblada por Mierdas, encuentras una perla
WILLIAM S. BURROUGHS
Marica (1985)

Fotografias:
EMMANUELLE MARCHADOUR


Bebia como um condenado, e sempre retratou sua própria vida nas histórias que escrevia. Sua trajetória mistura a jornada entre os gordos cheques dos estúdios de cinema e o foco na carreira literária. Esse é JOHN FANTE (1909-1983), figura lendária da literatura norte-americana. Seu pessimismo gritante e humor cáustico, tanto em sua vida como em sua obra, refletem uma rebelião contra a sociedade convencional. “Guru” de talentos reconhecidos como Raymond Carver e Charles Bukowski, sua criação é uma das mais radicalmente inovadoras da literatura contemporânea. De olho no cotidiano, ele lançou um gênero chamado “realismo sujo”.

Segundo disse, tentou “ser o melhor escritor do mundo”. Deixou como legado pelo menos duas obras extraordinárias, “Pergunte ao Pó” (1939) e “Sonhos de Bunker Hill” (1982), que estavam entre os livros preferidos do gaúcho Caio Fernando Abreu. Hollywood desperdiçou o talento de JOHN FANTE, reduzindo-o a um mero roteirista de encomenda sem qualquer obra cinematográfica de substância. Após ver um filme roteirizado por ele, “Pelos Bairros do Vício / Walk on the Wild Side” (1962), saboreando café com conhaque, no primeiro ano da década de noventa, conversei empolgado com Caio Fernando Abreu sobre a narrativa e caracterização dos personagens do pai de Bandini. Sua violenta energia e perturbadora visão de mundo são admiráveis. 

john fante
Defensor fervoroso de Fante, o papa do underground literário Charles Bukowski se ocupou durante toda a vida, e com afinco, de evidenciar o importante que para ele era a obra de JOHN FANTE, um escritor considerado até então medíocre, carente de recursos, um desconhecido. O romance “Pergunte ao Pó” vendeu apenas 3 mil exemplares quando lançado, porque o editor não tinha dinheiro para divulgá-lo. Em 1980, veio a reedição com prefácio de Bukowski e a descoberta mundial. Um estranho na terra prometida, feito um santo ou um criminoso com ordem de busca e captura, o escritor nada tinha a perder, e numa rotina encharcada de álcool, escreveu a vivência dos derrotados. Acabou seus dias em uma confortável casa em Malibu, na Califórnia, cego, com as pernas amputadas devido a diabetes que padecia, mergulhado num coração ferido, ressentimentos, apostas e ditando romances para a mulher, a poetisa com interesse em magia branca, Joyce Smart.

Nascido em Denver, Colorado, o jovem candidato a escritor enviou um conto ao famoso H. L. Mencken, editor da revista literária “The American Mercury”, que foi publicado. Para ganhar a vida e sustentar a numerosa família de quatro filhos, que nunca levou a sério, trabalhou em Hollywood roteirizando filmes, vendendo a alma ao diabo e publicando apenas quatro livros em quase quarenta anos. O segundo deles, “Espere a Primavera, Bandini”, de 1938, conta com o irresistível protagonista alter ego do autor, Arturo Bandini. Lembro-me adolescente, trabalhando num escritório de arquitetura para pagar os estudos, identificado com o glamour das peripécias de Bandini, sonhando em viajar, amar, vivenciar aventuras medíocres e escrevê-las.

Em 1952, JOHN FANTE obteve sucesso comercial com o romance “Um Casal em Apuros”, e a adaptação para o cinema o levou a nomeação ao Oscar de Melhor Roteiro. Em 1957, passando temporada em Roma, convidado pelo poderoso produtor Dino De Laurentiis, morava em um apartamento renascentista, com chofer e criada. A meta era desenvolver um roteiro - nunca rodado - sobre São Genaro. Na época, foi contratado por um decadente Orson Welles como colaborador de um programa radiofônico patrocinado por uma firma de cosméticos. Para o diretor Michael Curtiz (“Casablanca / Idem”, 1942) cobrou 350 dólares por uma hora de trabalho em uma cena de “São Francisco de Assis / Francis of Assisi” (1961). Federico Fellini também tentou tê-lo como parceiro, mas não houve acordo financeiro.

Pouco antes de morrer, aos 74 anos, justamente quando seus livros voltavam a ser publicados, escreveu “1933 Foi um Ano Ruim” (1985), “Rumo a Los Angeles” (1985) e “A Oeste de Roma” (1986). “Dago Red”, de 1940, foi reeditado em 1985 como “O Vinho da Juventude”. Passou a infância basicamente no triângulo escola-família-igreja. A juventude foi dura. Criou-se num lar entre intermináveis discussões, falta de dinheiro, insultos xenófobos e manifestações anti-católicas, defendendo-se do hostil mundo exterior com frequentes brigas e a prática do boxe. Herdeiro do espírito aventureiro da família paterna, trocou a igreja pela biblioteca pública, começando a escrever aos 20 anos. Cansando-se da universidade em apenas seis meses de frequência, mudou-se para a terra onde se tornaria um dos seus mais formidáveis cronistas, Los Angeles.

Sua sobrevivência cotidiana com a mente direcionada para converter-se em uma “celebridade das letras” está impressa em seus vigorosos relatos. À imagem de Knut Hamsun, um dos seus escritores favoritos, passou fome, vagabundeou sem descanso, habitou sórdidos motéis, envolveu-se com garotas nada sérias, trabalhou em uma fábrica de conservas, e se embriagou todos os dias, montando escândalos públicos e proclamando-se um gênio incompreendido. Em busca do reconhecimento do talento, uma máscara para esconder uma espantosa desintegração social, coseu com humor macabro as experiências dramáticas de Arturo Bandini, um escritor-filósofo malandro e vaidoso protagonista de uma sublime tetralogia.

A crescente reputação como criador de histórias, de emotividade à italiana, abriu para ele as portas dos estúdios. Livre da fome e de roupas remendadas, pagou o preço do conforto atando-se a melodramas cinematográficos baratos, muitas vezes parodiando sua própria origem, em títulos como “A Vida Tem Dois Aspectos / East of the River” (1940), sobre o bairro nova-iorquino Little Italy. Como roteirista ganhava mil dólares por semana, mas foram filmados apenas oito de seus trinta roteiros, aos quais desprezava. Francis Ford Coppola projetou adaptar “The Brotherhood of the Grape” (1977), que o escritor considerava o seu melhor trabalho e aquele que o havia feito chorar mais. Retrata uma rude figura paterna em uma família italiana em crise. Mesmo com contos publicados em revistas importantes, como “Harper´s” e “Esquire”, seus romances foram durante muito tempo recusadas pelas editoras.


Bebedor incontrolável, péssimo pai e marido, JOHN FANTE podia acabar a noite falando porcarias com um companheiro ébrio da talha do premiado com o Nobel William Faulkner ou destruindo seu Plymouth contra um poste telefônico de Hermosa Beach. Em entrevista, um dos seus filhos, Dan, afirmou: “Não era um cara legal.”. As memórias tumultuadas da relação pai e filho foram parar em livro. “Meu pai teve muito azar, mas ele também construiu sua própria má sorte. Era um homem muito difícil, insultava pessoas. Não era nada político”, garante Dan Fante. Caprichoso, o escritor teve um jaguar, um pit-bull branco batizado com o nome de Rocco e uma Baretta calibre 22. Passou mais de 20 anos entre um romance e outro, e o tempo não jogou limpo com sua ambição de reconhecimento literário.

O diagnóstico de diabetes em 1955 fez com que sua carreira tomasse um baque. As complicações da doença ocasionaram cegueira. Mas não foi desculpa para que ele parasse de escrever. Passou então a ditar as histórias para sua mulher, Joyce. O editor de poesia do jornal “Los Angeles Times”, Ben Pleasants, e Charles Bukowski resgataram JOHN FANTE do anonimato. Fascinado pela leitura de “Pergunte ao Pó”, Bukowski rodou o bairro de Bunker Hill, onde se situa o esfomeado Arturo Bandini, para se sentir como o personagem por um dia. Seu alter ego, Henry Chinaski, manifesta expressamente em “Mulheres” (também em “Pedaços de Um Caderno Manchado de Vinho”), que seu autor preferido era John Fante. “F-A-N-T-E”, enfatiza. Por fim, Bukowski convenceu a editora Black Sparrow Press a republicá-lo, após décadas de esquecimento. Ele visitou o ídolo no hospital e lhe dedicou o poema “Love is a Dog from Hell”: “Para John Fante, que me ensinou como. Hank”.


A biografia de JOHN FANTE foi publicada por Stephen Cooper no ano de 2000. Ele merece homenagens. Faz parte da nata literária dos anos 1930-40 de escritores que viveram do ofício de roteirista de Hollywood. Gente do naipe de Raymond Chandler, Nathanael West, Budd Schulberg, Faulkner, F. Scott Fitzgerald, James M. Cain e Dorothy Parker. Não seria nada mal tomar uma taça de vinho tinto seco e encorpado em sua memória. Que viva o mestre incompreendido!

Barcelona, Espanha
09 de julho de 2005


CINCO FRAGMENTOS de “PERGUNTE AO PÓ”

O mundo era pó e ao pó voltaria.

Tudo o que era bom em mim me emocionou naquele momento, tudo o que eu esperava do profundo e obscuro significado da minha existência. Aqui estava a placidez interminável e muda da natureza, indiferente à grande cidade; aqui estava o deserto abaixo dessas ruas, ao redor dessas ruas, esperando que a cidade morresse para cobri-la com a areia eterna uma vez mais.

Tornava-me um estranho dentro de mim, era como todas aquelas noites calmas e os altos eucaliptos, as estrelas do deserto, aquela terra e aquele céu, aquele nevoeiro lá fora, e eu viera para cá com nenhum propósito exceto o de ser um mero escritor, ganhar dinheiro, ser reconhecido e toda aquela baboseira. Ela era muito melhor do que eu, tão mais honesta que fiquei enojado de mim mesmo e não podia enfrentar seus olhos cálidos.

Não fiz perguntas. Tudo o que eu queria saber estava escrito em frases torturadas através da desolação do seu rosto.

Saí para uma caminhada pelas ruas. Meus Deus, aqui estava eu de novo, perambulando pela cidade. Olhei os rostos ao meu redor e sabia que o meu era como o deles. Rostos drenados de sangue, rostos tensos, preocupados, perdidos. Rostos como flores arrancadas de suas raízes e enfiadas num vaso bonito, as cores se esvaindo rapidamente. Eu tinha que sair daquela cidade.






10 comentários:

Ana Machado disse...

Da ponta dos dedos direto para o coração.

Neide Fernandes disse...

Lindo texto...prazeroso de ler como tudo o que vc escreve,parabéns.

Ivone Oliveira disse...

Que Deus te conserve sempre assim: escrevinhador de emoções, garimpando sentimentos ocultos em seus leitores...

Gebardo Sabino DE Oliveira disse...

Excelente..Muito bom!@!

Nilcéa Oliveira disse...

Amooo seus textos. Me faz viajar para dentro de mim...

Osvaldo Daniel Tórtora disse...

Muito muito bom...

Prema Ahimsa disse...

...na verdade eu temo mais aos "bem adaptados" à uma sociedade hipócrita e doente...

Arthur Hoffmann disse...

Escritor admirável. Grato pelo artigo.

Marina Martinelli disse...

Li dele Pergunte ao pó. Forte, de uma poesia seca. O filme com o Colin Farrell foi uma decepção.

Ricardo Mello disse...

Grande escritor e inspirador de outros como Burroughs ,Bukoswki e o pessoal riponga