Fotografias:
STEVE McCURRY
(1950.
Filadélfia,
Pensilvânia / EUA)
Um dos
mais expressivos poetas do Rio Grande do Norte, HORÁCIO PAIVA (1945. Macau /
RN) escreve desde a adolescência, publicando seu primeiro poema, “O Tempo”, aos
16 anos, no jornal macauense “O Nacionalista”. Aos 18, com outros jovens
escritores, criou, em Natal, o Movimento dos Novíssimos, que mantinha uma
coluna literária no jornal católico “A Ordem”. Lançou seu primeiro livro de
poesia em 2002, “Navio Entre Espadas”. Depois de participar em antologias,
publicou em 2012 “A Torre Azul” e, em 2017, “Caderno do Imaginário”. Figura
ainda como um dos autores do livro “Clarões da Tela – O Cinema Dentro de Nós”,
publicado em 2006. No seu trabalho, há temáticas líricas, sociais e de
inspiração mística. Formado em Direito, membro da União Brasileira de Escritores
do RN, fundador e presidente da Academia Macauense de Letras e Artes (AMLA).
Aos 80 anos, conduz uma trilha literária repleta de nuances. Confira na nossa
entrevista:
01
Quem é o
poeta Horácio Paiva?
Posso
dizer-lhe, um tanto metaforicamente, que sou um discípulo de Orfeu, essa figura mitológica e lendária, que ainda
inspira o fazer artístico e tanto influenciou o pensamento e a religiosidade. A
minha poesia é voltada ao mistério existencial e à expansão da consciência e
temas como vida e morte nela aparecem constantemente. Schopenhauer chegou a
dizer que “a morte é a musa da filosofia”, pensamento que também nos remete a
Platão e Sócrates, que definiam a filosofia como “preparação para a morte”. E é
inegável que a morte tem sido musa, também, na poesia. E quanto se aprende com
a poesia, fonte inesgotável de conhecimento! Em minha trajetória existencial,
sempre procurei descobrir, ampliar o conhecimento, quebrar paradigmas, enxergar
mais longe, inconformado pela limitação de nossos cinco sentidos e percebendo
ou crendo que o mundo real é bem maior. Nesta perspectiva, abandonei o
materialismo e adotei o idealismo. Isto é, primeiro a ideia, depois a matéria (e
esta, expressão da ideia). Procuro enriquecer o horizonte de minha percepção,
e, neste rumo, digo que a poesia é profética, porque passa a ser mais ampla do
que o simples e concreto. O tema da morte é um desafio, porque a morte é, como a vida, como tudo, um mistério. Mas, numa perspectiva de eternidade, como na visão agostiniana e platônica, não há morte, porque tudo continua existindo. O tempo metafórico que inventamos é o predador de todos nós. Por isso que a morte me interessa, como outros temas essenciais também
me interessam. Minha poesia trata dessa minha mudança, até porque fui ajudado
por ela. E gosto muito do tema da
expansão da consciência, para sentir e pensar com mais intensidade. Por isso
não creio que a realidade seja apenas o concreto. Sou, deste modo, um
neoplatônico.
02
Como se
deu o seu primeiro contato com a literatura?
Muito
cedo, através das histórias que minha mãe me contava, algumas tiradas de
leituras de Monteiro Lobato (“O Sítio do Picapau Amarelo”), outras, mais
antigas, da tradição europeia, de duendes e fadas. A sensibilidade em relação à
vida e à arte cedo se manifestou em mim. Nasci em Macau, cidade marítima,
salineira e portuária, com muitas histórias e tradições do mar e do ultramar.
Lembro da emoção que senti quando, entre os 4 e 5 anos, vi a encenação de uma
dessas cativantes histórias, a da “Nau Catarineta” (na realidade um bailado,
cantado, a que chamamos Fandango), realizada em praça pública, num barco
improvisado de madeira e lona. A certa altura cheguei a chorar, com a magia da
dramatização poética daqueles cantares. Era poesia. Também eram poesia os
pastoris, as danças folclóricas, como a dança do coco (que eu assistia no
sindicato dos trabalhadores de salinas), a récita dos cantadores de cordel, na
praça do mercado público em dias de feira, com suas rabecas de acordes
fascinantes, e que, como os velhos aedos gregos, percorriam as cidades dos
sertões, cantando as sagas de heróis populares, fictícios ou não, de uma
memória quase perdida no tempo. Empolgavam-me, dentre tantos cordéis, o
“Romance do Pavão Misterioso”, “A Prisão de Oliveiros”, “A Morte dos Doze Pares
de França”, “A Vida de Cancão de Fogo e o seu Testamento”, “A Chegada de
Lampião no Inferno”, “O Cachorro dos Mortos”, “História da Donzela Teodora”, “O
Verdadeiro Romance do Herói João de Calais”, “Roldão no Leão de Ouro”, “A Força
do Amor ou Alonso e Marina”. Neste último, o início é maravilhoso:
“Nestes
versos eu descrevo
a força que o
amor tem
que ninguém
pode dizer
que não há de
querer bem
o amor é como
a morte
que não
separa ninguém.”
Todos
esses fatos foram precedentes poéticos, preparatórios ao meu ingresso na poesia
sob a sua forma erudita. Não lembro bem a idade em que escrevi meus primeiros
“rascunhos” poéticos, mas sei que um livro foi fundamental para assegurar-me
nesse caminho iluminado da poesia: uma antologia, uma bela antologia, editada
em 1957, organizada por um grande intelectual brasileiro já falecido, escritor,
ensaísta, pintor e também poeta, Sérgio Milliet, e intitulada “Obras Primas da Poesia
Universal”. Tinha por volta de 12 anos de idade quando a recebi de presente de
meu irmão mais velho, Graziani. Até hoje, gosto, particularmente, de
antologias, e me encanta a universalidade da poesia, em seus variados estilos.
03
Escrevendo
poemas se sente em paz, inquieto com seus pensamentos ou combatendo o bom
combate?
Certa vez
me perguntaram por que eu escrevia. E respondi: “Escrevo porque não
compreendo”. Acho que a angústia de não entender completamente o mistério da
existência é o principal motor do ato de escrever, que é um ato de procura, de descoberta,
sobretudo quando se trata de poesia, onde a linguagem é menos linear e onde o
uso da metáfora é mais intenso, quebrando limites e facilitando o processo de
expansão das ideias. Portanto é um bom e necessário combate que, embora
interminável, tem momentos de conquista e de paz. Um grande poeta, Rubén Dario,
escreveu:
“Ditosa a
árvore que é apenas sensitiva,
e mais a
pedra dura, porque essa já não sente,
pois não
há dor maior que a dor de ser vivo,
nem maior
pesar que o da vida consciente.”
Mas,
grandes sábios, como Jesus, Sócrates e Buda, viviam a paz... e nada escreveram.
Não quero, porém, encerrar a resposta sem citar também Novalis, esse original e
notável pensador e poeta romântico alemão, que diz, em seus “Fragmentos”: “Se,
como existe uma lógica, tivéssemos uma Fantástica, ter-se-ia descoberto a arte
de inventar. A Poesia é talvez a mais importante fonte do diálogo do homem com
Deus. O poeta cria de novo o mundo para os homens e essa criação é obra de
conhecimento.”
04
Seus
poemas surgem quando está escrevendo ou são planejados com
antecedência?
Os meus
poemas surgem nas mais diversas ocasiões. Às vezes, quando menos espero, eles
chegam quase prontos. Às vezes, vem-me a ideia, que anoto e depois desenvolvo. Mas
o surpreendente é que vários surgiram em sonhos. Para captá-los, memorizá-los
ou salvá-los, devo fazer o esforço de levantar-me e logo anotá-los, senão se
perdem no submundo da mente, retornando às sombras do subconsciente... Como define um poema seu como bom, acabado, ou,
ao contrário, ruim, deleta do computador?
Minha sensibilidade
estética, vivência no universo da poesia e, ao mesmo tempo, autocrítica. Quando
tenho dúvidas, coloco-o no limbo: numa gaveta por alguns dias. Depois,
releio-o. Posso, então, aproveitá-lo, melhorá-lo ou, com ou sem piedade,
deletá-lo. Essa ideia da gaveta é um símbolo muito bom. Acho que vi tal
conselho em “Itinerário de Pasárgada”, do grande Manuel Bandeira... ou teria
sido em Fernando Sabino?
06
Como caracteriza sua poesia?
Minha
poesia, existencial e reflexiva, é uma constante procura da beleza e da verdade
- ambas irmãs, como já o disse Emily Dickinson. Uma busca afetiva do
conhecimento. Vivo profundamente o mistério da vida e de Deus. Vivenciar, pois, a
poesia, a arte e o conhecimento é o meu propósito e ofício. Minha poesia, preferentemente (mas não
exclusivamente) é formulada em versos, mas sobretudo voltada para a valorização
da imagem e da metáfora, explorando seu campo de juventude, originalidade e
expressão. Mas não estou preso a formatos. Já fiz, embora raros, poemas
visuais. Consegui até mesmo elaborar (ou seria inventar?), em quadrinhos geométricos
coloridos, a tradução de um poema de Verlaine (“Colloque Sentimental”). Já o
meu poema “Górgona” associa forma visual à palavra escrita.
07
Muita
gente que escreve mensagens sentimentais acredita que é poeta. O que é um poeta
autêntico?
É o que
produz poesia de qualidade, bela e profunda, muitas vezes dando respostas
originais a velhos temas, levando-nos à emoção estética e contribuindo para a expansão
da consciência humana.
08
A poesia
é realmente necessária nessa época tão superficial?
A poesia, a arte de qualidade, é o que pode salvar-nos nessa maré de mediocridade. Novamente volto a Schopenhauer, filósofo que admiro e li
muito na juventude, e que diz: “A arte justifica
o sofrimento da vida”.
09
O que
acha das teorias literárias? Elas de alguma forma lhe influenciam?
Encaro-as
com naturalidade, mas sem exclusivismo. Fazem parte da diversidade e algumas
até se complementam. Estão presentes no processo criativo literário e na
diversidade de estilos, encontradas ao longo do desenvolvimento dos vários
movimentos artísticos. Quanto a mim, zelo pelo meu parentesco com o
expressionismo, o surrealismo e o ultraísmo (sobretudo na valorização da
metáfora). Do ponto de vista filosófico, admiro a teoria do Élan Vital,
desenvolvida por Bergson, que valoriza a intuição. Ainda muito jovem, cheguei a
imaginar um caminho ou rota literária que lembrava o automatismo, e o chamei de
“extratismo”, por buscar extrair a essência do tema lírico escolhido, com a
força desbravadora da intuição. Até o título de um livro imaginei: “Retrato do Extrato”... Um sonho inconcluso, mas que me deixou lições.
10
Na sua
trajetória, há a preocupação de compor uma obra literária personal?
A
preocupação, na realidade, é em ser fiel ao meu subjetivismo e retratar minhas
ideias com precisão e harmonia, neste idílio de beleza e verdade.
11
Qual a
importância do estilo?
O estilo
não é apenas importante, mas fundamental. Esteticamente, é a forma onde se
desenvolve a ideia, cuja projeção na beleza, se maior ou menor, dependerá dele.
12
Quais os
escritores e poetas brasileiros que tocam a sua sensibilidade?
Vários...
mas não vou alongar-me. Cito apenas alguns: Castro Alves, Gonçalves Dias,
Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima, Manuel Bandeira, João
Cabral de Mello Neto, Carlos Pena Filho, Auta de Souza, José Lins do Rego,
Machado de Assis, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, João Guimarães Rosa,
Ariano Suassuna, Mário Quintana, Adélia Prado, Gilberto Avelino, João Charlier
Fernandes etc...
13
Como é o
seu relacionamento com a poesia?
O melhor
possível. Há muito amor! Mas também angústia na procura de sua melhor
expressão, mesmo porque, sendo esta infinita, as escolhas são múltiplas. Mas
logo aparecem outros desafios...
14
O poeta é
diferente de outros homens?
Essencialmente,
não. Afinal, “de poeta, médico e louco, todos nós temos um pouco”, como diz o
ditado. Mas o poeta é um celebrante, um oficiante da linguagem, e com ela
constrói o seu caminho lírico, ampliando o universo da consciência, resgatando
a beleza de seus esconderijos, até os mais insólitos.
15
Escrever
é uma vaidade ou uma necessidade num mundo com tanta ignorância e miséria?
Não creio
ser uma vaidade a verdadeira arte de escrever.
A arte é um dos campos abertos à exploração do belo, à criação, à
realização de importantes descobertas existenciais. Dessa forma, é uma
necessidade, e também um antídoto à ignorância e à miséria.
16
Percebo que nos últimos anos o poeta brasileiro vive
numa espécie de bolha, uma panelinha de elogios, uma troca de poemas entre
poetas, praticamente ignorando os leitores. Por que tem que ser assim?
Bolhas e
panelinhas sempre existiram, mas não digo que deva ser assim, com essa
banalidade que você aponta e que é fato. Por outro lado, mas sem exclusivismo,
é saudável a formação de grupos de amigos, com críticas
e sugestões, suas produções literárias, as quais, lançadas, passarão
pelo crivo dos demais leitores.
17
Cite um
momento seu de epifania literária?
Aqui
conto uma história. Tive um sonho, um sonho extraordinário, altamente simbólico
e belo, ambientado no Oriente, talvez na Índia, numa época antiga. Além de
colorido (com destaque para o dourado), era sonoro, e passava-se num palácio,
ricamente adornado para a festa que ocorria: o meu casamento! Eu era um
príncipe e ia receber, como esposas, três lindas princesas. Chamava minha
atenção a harmonia, o largo entendimento que havia entre elas, mesmo quando me
acariciavam, e também a imensa compreensão e alegria que todos expressavam, como
se o fato fosse de muita importância para a salvação do Reino. Acordei
impressionado e procurando o sentido desse sonho. Uma das hipóteses que me
ocorreu foi a do dogma da Santíssima Trindade: a trindade na unidade... Mas a
sensação que me ficou foi a de posse de um tesouro, algo transcendental e
libertador. Levantei-me e escrevi o poema “Aquele Sonho”,
publicado no meu “Caderno do Imaginário”.
Quais são as coisas que o deixam desolado e as coisas
que, eventualmente, o deixam animado?
Há poucos
meses, ao completar oitenta anos, escrevi um texto (“Oitent’anos - Comunicação Lírica
em Prosa e Verso”), onde trato dessas questões: a esperança e a desolação. A
esperança, que ressurgiu no pós-guerra e a atual desolação ante a possibilidade
que se cria de nova catástrofe. Eis alguns breves excertos:
“(...) ao ultrapassar a barreira de meus quatro vinte
anos, vejo que a humanidade volta a enfatizar a sua irracionalidade, a
percorrer o perigo bélico e parece, ela própria, projetar-se noutro entardecer,
sem minaretes e muezins, sem chamamentos à oração, mas ao sangue e à guerra. E isto
faz-me lembrar o que dizia o pensador francês Edgar Morin sobre a complexidade
do ser humano que, sendo racional, é também irracional. Quantos avisos inúteis
ante a vocação apocalíptica para o desastre! Resta-nos, porém, algo maior: o
sonho, com suas possibilidades ilimitadas, inclusive a de mudar esse rumo.”
Mas vejo,
na humanidade que não quer aprender, essa vocação trágica para o suicídio
global.
19
Como
encara a morte e o que espera da sua poesia para além dela?
Guardo
sempre comigo esses versos de Calderón de la Barca: “La vida es sueño / Y los
sueños sueños son”. A morte, então, seria o fim de um sonho, ou a ilusão desse
fim. E depois, haveria outros sonhos? O mistério não nos permite ir adiante,
não abre o véu para que vejamos a legenda...
Mas nos permite imaginar e até deduzir que somos parte da eternidade, onde nada finda. Encaro a morte com naturalidade, sem
desespero ou apego... Afinal, somos todos viajantes... Bashô, mestre do haicai
e grande poeta japonês, assim se manifesta logo no início de seu belíssimo
livro de viagens (viagens que fez ao fim da vida), “Sendas de Oku”:
“Os
meses e os dias são viajantes da eternidade. O ano que se vai e o que vem
também são viajantes. Para aqueles que deixam flutuar suas vidas a bordo dos
barcos, ou envelhecem conduzindo cavalos, todos os dias são viagem e sua casa
mesma é viagem.”
Quanto a poesia, aos versos que descobri, vivi e expressei, estes não são apenas meus e permanecerão naqueles que os amarem. Mas não sei precisar até quando...
20
Pouco se
fala no Brasil da literatura potiguar. É injustiça ou faltam
bons escritores na terra de Cascudo?
Você tem
razão, quanto ao pouco conhecimento que se tem no Brasil da literatura
potiguar. Já Câmara Cascudo dizia: “Natal não consagra nem desconsagra
ninguém.” Mas nada disso quer dizer qualidade e, sim, divulgação. O Rio Grande
do Norte tem bons escritores. Mas, apesar de sua excelente localização
geográfica, é um estado novo de cabelos brancos. Embora com registros
históricos antigos, sua população somente veio a se tornar expressiva
recentemente. No começo do século vinte correspondia a pouco mais de 200 mil habitantes e a dependência de Pernambuco
era muito grande. Até meados do século XX, os aspirantes potiguares a cursos
superiores, como Direito e Medicina, teriam que procurar tais cursos em Recife
ou Salvador. E ainda hoje, quanto à literatura, os escritores daqui são pouco
divulgados, mesmo dentro do próprio estado.
21
Quem são
os grandes poetas do Rio Grande do Norte?
Sempre
que ouço essa pergunta, e talvez com receio de praticar alguma omissão, eu me
lembro de Montaigne, ao dizer que só haveria justiça no julgamento de um homem
após sua morte. Imagine esse pensamento aplicado em relação aos artistas que,
muitas vezes, têm o reconhecimento, ou julgamento justo, da alta qualidade de
suas obras somente após décadas de seu falecimento - e isto por inúmeros e variados motivos. Um
desses exemplos é o de Emily Dickinson, uma das maiores poetisas dos Estados
Unidos, cuja obra só alcançou notoriedade muito tempo após sua morte. Assim,
com os mortos ao meu lado, posso destacar alguns deles, dos que mais gosto, com
solidez para atravessar os tempos: Auta de Souza, Othoniel Menezes (pelo poema “Serenata
do Pescador”), Edinor Avelino, Palmira Wanderley, José Bezerra Gomes, Jorge
Fernandes, Zila Mamede, Luís Carlos Guimarães, Gilberto Avelino, Miguel Cirilo,
Walfran de Queiroz, Sanderson Negreiros e João Charlier Fernandes. Não vou me
alongar neste assunto, mas, para não frustrar a resposta de tão gentil
pergunta, posso dizer, quanto aos vivos, que há um grande laboratório de
potencialidades em gestação e, nele, vários e bons poetas potiguares já
preparados e, portanto, com espaço para voar.
22
Qual a
importância das Academias de Letras nos dias de hoje?
As
academias têm um potencial de saber que pode ser muito útil à sociedade. Mas a
sua importância maior se revela quando esse potencial passa a figurar em ações
práticas e de interação educativa e cultural, que correspondam aos anseios de
crescimento intelectual da população que representa.
23
Tem
livros inéditos?
Sim. Dois
de poesia (“Navio Azul Imaginário” e “O Som Imóvel”) e outros, de ensaios (“Encontro
com a Poesia”) e memórias (“Gamboa das Barcas – Retratos da Memória”).
24
Em quais
projetos poéticos está trabalhando?
Na
ordenação desses próximos dois livros de poesia: o primeiro, “Navio Azul
Imaginário”, que reúne poemas novos, ainda não publicados nos livros que o
antecedem, e, o segundo, “O Som Imóvel”, uma sinfonia literária em quatro
movimentos, com uma seleção de poemas dos quatro livros anteriores.
25
Finalizo,
perguntando se está lendo um livro de poesias agora. Ou qual o
último que leu. Fale sobre ele.
Sim,
sempre estou lendo poesia. O livro atual, “A Poesia é Necessária”, organizado
por André Seffrin, é uma seleção de poemas de vários autores (alguns até pouco
conhecidos) publicados pelo notável Rubem Braga, no espaço (também sob esse
título) que utilizava na antiga revista “Manchete” (de 1953 a 1956) e na “Revista
Nacional” (de 1979 a 1990). Muitos desses eu já conhecia, da época de sua
publicação, e outros, ainda não. Boas escolhas, bons poemas. Obrigado.
26
Eu é que
agradeço, caro poeta.
CINCO
POEMAS de HORÁCIO PAIVA
AB
AETERNO
Não
tenhais pressa, irmão:
tudo já
se viu
tudo já
se disse
tudo já
se fez.
A HORA
RASA
não há
mais onde abrigar-se
o quarto
é um símbolo mudo
e a
calmaria
sinal de
perigo
os odres
estão vazios
e muita
cautela é preciso ao pisar
as nuvens
de silêncios inflamáveis
outrora
havia rumor de tambores
que
anunciavam a chuva
mas os
ventiladores pararam
o quarto
está despido
sem
sombras e sem luz
sem
qualquer movimento de espera
exceto a
expectativa
de que
uma porta se abra
e exponha
o jazigo
a
exterioridade dos ruídos
Os PONTOS
CARDEAIS
norte:
a ursa
maior
e o
lunário perpétuo
sul:
cardumes
de prata
leste:
a barca
do sol
oeste:
o fogo de
santelmo
ao lado:
olhares
primitivos
da noite
ao
centro:
uma
caverna incógnita
sob as
estrelas
grilos
e
alguém
que sonha
SERAFIM
serafim
da noite
serafim
da morte
serafim
do amor
será
finda noite?
será
finda morte?
será
findo amor?
será fim
da noite
será fim
da morte
será fim
do amor
TRISTIUM
BAR
“Por isso no Bar Savoy
O refrão tem sido assim”
Carlos Pena Filho
um poema
sobre si mesmo
e em
versos brancos
ele quis
fazer
aqui está
o poema
versos
mais trancos
que
brancos
quebrantos
sim
voz seca
da noite
quebrando
esvaziando
o encanto
e o encontro
pondo um
ponto final
afinal
ele estava num bar
iluminado
pelos faróis
pela
noite veloz
e em
tragos sentimentais
tragava
uma
cerveja amarga
para
molhar a palavra
e
melhorar a voz
naquela
hora amarga
a solidão
matar
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