dezembro 12, 2016

********* POESIA-BRASIL: 20 LIVROS para nos LEVAR ALÉM



 
Ilustrações:
ALEXANDER CALDER
(1898 - 1976. Pensilvânia / EUA)
e GIANNI A. SARCONE
(1962. Vevey / Suíça)


O poeta Ferreira Gullar, recentemente falecido, partilhava da opinião de quem se faz poeta cria um mundo paralelo: mais bonito, mais intenso, mais significativo, bem acima da realidade imediata. Através da poesia muitos autores encontram condições para expressar sentimentos típicos da alma humana. No entanto, nem sempre é fácil compreender/sentir o texto poético, mas um livro de poesia não deixa de ser um companheiro perfeito para relaxar na rede, ler no ônibus ou mesmo viajar com ele. Ler poesia não é um hábito popular, nunca foi. Não são todas as pessoas que conseguem compreender a linguagem de um bom verso e interpretá-lo com uma visão mais aprofundada. Cantada, falada ou escrita, a poesia emociona. Ela se desdobra em poesia social, reflexão existencial, metalinguagem, nostalgia. Passa pelo barroco, arcadismo, romantismo, parnasianismo, simbolismo, pré-modernismo e modernismo. Marcada por grandes nomes, que nos legaram grandes obras, a obra poética brasileira elaborou um estilo próprio. Nesse cenário, diversos poetas deixaram sua marca por meio da subjetividade e poder reflexivo dos poemas que criaram ao longo da trajetória profissional.


O “Cinzas & Diamantes” listou vinte livros fundamentais de poesia. Não foi fácil. Complicado, afinal são estilos diferentes num mesmo mar literário. Essa variedade é positiva porque cria um acervo rico em opções, satisfazendo os gostos de todos os apaixonados leitores. Reuni um rico material de palavras que se unem e se transformam nos mais belos versos. Pura artimanha de poetas conscientes e dotados das melhores ferramentas para escrever. Uma lista que percorre a trajetória poética brasileira. Versos e reversos de autores esfomeados pela busca da expressão. Eles mergulham em viagens de liberdade interior e dessa forma - deliberada e voraz - criam uma poética que transcende o tempo, os limites, e que emociona a cada leitura. Essas obras alcançam força e beleza que não se acanham diante da construção poética. Confira a lista abaixo:

paulo leminski
 
01
INVENÇÃO de ORFEU
(1952)
de Jorge de Lima
(1893 - 1953. União dos Palmares / Alagoas)

Mesmo nos olhos havia
uma clara geografia.
Mesmo nesse fim de mar
qualquer ilha se encontrava,
mesmo sem mar e sem fim,
mesmo sem terra e sem mim.
Mesmo sem naus e sem rumos,
mesmo sem vagas e areias,
há sempre um copo de mar
para um homem navegar.
Nem achada e nem não vista
nem descrita nem viagem,
há aventuras de partidas
porém nunca acontecidas.

02
POEMA SUJO 
(1976)
de Ferreira Gullar
(1930 – 2016. São Luís / Maranhão)

azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha
que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor
e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo
(não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti
bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era…
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia

03
Do DESEJO 
(1992)
de Hilda Hilst
(1930 – 2004. Jaú / São Paulo)

Se eu disser que vi um pássaro
Sobre o teu sexo, deverias crer?
E se não for verdade, em nada mudará o Universo.
Se eu disser que o desejo é Eternidade
Porque o instante arde interminável
Deverias crer? E se não for verdade
Tantos o disseram que talvez possa ser.
No desejo nos vêm sofomanias, adornos
Impudência, pejo. E agora digo que há um pássaro
Voando sobre o Tejo. Por que não posso
Pontilhar de inocência e poesia
Ossos, sangue, carne, o agora
E tudo isso em nós que se fará disforme?

04
ESTRELA da VIDA INTEIRA
 (1966)
de Manuel Bandeira
(1886 – 1968. Recife / Pernambuco)

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

05
ROMANCEIRO da INCONFIDÊNCIA 
(1953)
de Cecília Meireles
(1901 – 1964. Rio de Janeiro / RJ)

Que andor se atavia
naquela varanda?
É a Chica da Silva:
é a Chica-que-manda!

Cara cor da noite
olhos cor de estrela.
Vem gente de longe
para conhecê-la.

(Por baixo da cabeleira,
tinha a cabeça rapada
e até dizem que era feia.)

Vestida de tisso,
de raso e de holanda
- é a Chica da Silva:
é a Chica-que-manda!

Escravas, mordomos
seguem, como um rio,
a dona do dono
do Serro do Frio.

(Doze negras em redor,
- como as horas, nos relógios.
Ela, no meio, era o sol!)

Um rio que, altiva,
dirige e comanda
a Chica da Silva,
a Chica-que-manda.

06
O CÃO SEM PLUMAS 
(1984)
de João Cabral de Melo Neto
(1920 – 1999. Recife / Pernambuco)

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.
O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.
Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.
Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.
Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

07
ESPUMAS FLUTUANTES 
(1870)
de Castro Alves
(1847 – 1871. Castro Alves / Bahia)

Vem! É tarde!  Por que tardas?
São horas de brando sono,
Vem reclinar-te em meu peito
Com teu lânguido abandono! ...
'Stá vazio nosso leito...
'Stá vazio o mundo inteiro;
E tu não queres qu'eu fique
Solitário nesta vida...
Mas por que tardas, querida?...
Já tenho esperado assaz...
Vem depressa, que eu deliro
Oh! minh'amante, onde estás? ...

08
SENTIMENTO do MUNDO
 (1940)
de Carlos Drummond de Andrade
(1902 – 1987. Itabira / Minas Gerais)

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microcopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer
esse amanhecer
mais noite que a noite.

09
O LIVRO das IGNORÃÇAS 
(1993)
de Manoel de Barros
(1916 – 2014. Cuiabá / Mato Grosso)

O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.

10
TODA POESIA 
(2013)
de Paulo Leminski
(1944 – 1989. Curitiba / Paraná)

quando eu vi você
tive uma ideia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante
basta um instante
e você tem amor bastante

11
IARARANA 
(1979)
de Sosígenes Costa
(1901 – 1968. Belmonte / Bahia)

E Tupã-Cavalo brotou a mataria
E as sementes nasceram e se viu que era cacau
E o cacau já estava crescidinho
e saía com uma força...
e saía com um forção
que benza-te Deus meu pé de feijão!
mas ele dava na gente  a tirar broto de cacau
deu facão a caboco para tirar broto de cacau
e o cacau desbrotado ficou parrudo
e bonito como danado.

12
PARA VIVER um GRANDE AMOR 
(1962)
de Vinicius de Moraes
(1913 – 1980. Rio de Janeiro / RJ)

Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia.
E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura.
Não sei bem se é casa
e é torre ou se é templo:
(Um templo sem Deus.)
Mas é grande e clara
Pertence ao seu tempo
– Entrai, irmãos meus!

13
GALÁXIAS 
(1984)
de Haroldo de Campos
(1929 – 2003. SãoPaulo / SP)

um livro
é o conteúdo do livro
e cada página de um livro é o conteúdo do livro
e cada linha de uma página
e cada palavra de uma linha
é o conteúdo
da palavra da linha da página do livro
um livro ensaia o livro
todo livro é um livro de ensaio
de ensaios do livro
por isso o fimcomeço começa e fina
recomeça e refina
e se afina o fim
no funil do começo
afunila o começo no fuzil do fim
no fim do fim recomeça o recomeço
refina o refino do fim
e onde fina começa e se apressa
e regressa e retece
há milumaestórias na mínima unha de estória
por isso não conto
por isso não canto
por isso a não estória me desconta ou me descanta
o avesso da estória
que pode ser escória
que pode ser cárie
que pode ser estória
tudo depende da hora
tudo depende da glória
tudo depende de ir embora
e nada e néris e reles e nemnada
de nada e nures de néris de reles de ralo de raro

14
Os ÚLTIMOS DIAS de PAUPÉRIA
 (1984)
de Torquato Neto
(1944 – 1972. Teresina / Piauí)

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

15
O MEL do MELHOR 
(2001)
de Waly Salomão
(1943 – 2003. Jequié / Bahia)

SAUDADE é uma palavra
Da língua portuguesa
A cujo enxurro
Sou sempre avesso
SAUDADE é uma palavra
A ser banida
Do uso corrente
Da expressão coloquial
Da assembleia constituinte
Do dicionário
Da onomástica
Do epistolário
Da inscrição tumular
Da carta geográfica
Da canção popular
Da fantasmática do corpo
Do mapa da afeição
Da praia do poema
Pra não depositar
Aluvião
Aqui
Nesta ribeira.

SAUDADE é uma palavra
O sol da idade e o sal das lágrimas

16
POESIA COMPROMETIDA  com a MINHA e a TUA VIDA 
(1975)
de Thiago de Mello
(1926. Barreirinha / Amazonas)

Para os que virão
Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.

Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.

Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular - foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente -
na primeira e profunda pessoa
do plural.

17
A CALIGRAFIA do SOLUÇO e POESIA ANTERIOR 
(1996)
de Florisvaldo Mattos
(1932. Ilhéus / Bahia)

com um facho de auroras no coração;
vértebras de assombro;
âncoras de fomes invasoras;
choro duro de homens e fornalhas;
moedas de crepúsculos;

18
POESIA ENCONTRADA
 (1978)
de Telmo Padilha
(1930 – 1997. Itabuna / Bahia)

De repente esse sussurro
de vozes no vento
e não é o mar que fala.

De repente essa esperança
e não vem das pedras.

De repente o ar se enche
de vozes
e não é a noite que fala.

O mar escuta.

19
INVENTÁRIO 
(1981)
de Myriam Coeli
(1926 – 1982. Manaus / Amazonas)

Entre sombra e pedra
desfolhada rosa
solitário espinho
que, alado e mudo,
perpassa o tempo.
(O tempo do tempo,
que tempo já era).

20
K: o ESCURO da SEMENTE
(2005)
de Vicente Franz Cecim
(1946. Belém / Pará)
 
Tudo vem como sombra do Um e para o Um volta como sombra. Aqui, na breve Residência, a vida, imersos nesta luz cheia de penumbras em que somos e não-somos, pois permanecemos sendo lá no Um enquanto aqui até parece que somos, as sombras estão no Vários, e se tornam coisas


novembro 15, 2016

............................................. CAIO F. - A VIDA APESAR de TUDO




E o futuro é de sangue, de aço, de vaidade. E vermelhos
azuis, braços e amarelos hão de gritar: morte aos poetas!
Morte a todos aqueles de lúcidas artérias, tatuados
de infância, de plexo aberto, exposto aos lobos. Irmão.
Companheiro. Que dor de te saber tão morto.
HILDA HILST
(1930 - 2004. Jaú / São Paulo)

Ilustrações:
BERNARD BUFFET
(1928 - 1999. Paris / França)


De acordo com o escritor mato-grossense Ricardo Guilherme Dicke, é na literatura que reside “o esplendor da linguagem. Um povo sem literatura é um povo sem alma, sem história, sem memória.” Infelizmente, a maioria dos escritores não permanece, não resiste ao tempo, isso é óbvio. Não é o caso do gaúcho CAIO FERNANDO ABREU (1948 – 1996. Santiago / Rio Grande do Sul), vinte anos após sua morte, o autor de “Morangos Mofados” (1982) continua sendo lembrado. Considerado um dos principais contistas do Brasil, sua ficção se desenvolveu acima dos convencionalismos, evidenciando uma linguagem fora dos padrões.

Conheci CAIO FERNANDO ABREU pessoalmente, fomos amigos. No inverno de 1989, ao chegar a Registro, pequena cidade no interior de São Paulo, soube que eu dividiria quarto de hotel com ele, o homenageado de um encontro de literatura marginal, coordenado por Leila Miccolis e Urhacy Faustino. Como um dos escritores convidados, passamos três dias numa correria de palestras, entrevistas, leituras poéticas, restaurantes e bares, sem tempo para conversa mais profunda. Ele, ferino e resmungão, não parecia feliz. Sombrio, magreza excessiva e grandes olhos de desalento davam ao escritor um aspecto vampiresco. Muito jovem, fiquei assustado com a sua dor travada, evitando estar ao seu lado o máximo que podia. Na última noite, após bebedeira em um restaurante, conversamos sobre literatura e cinema. Ele se empolgou ao recordar a atriz Odete Lara, um dos seus ícones, e me tratou com aspereza ao ouvir que eu só lera uma única obra sua, o citado “Morangos Mofados”, talvez seu único sucesso, deixando evidente a fome de reconhecimento. Caminhamos pela cidade deserta, fomos barrados num clube suburbano proibido para brancos e houve um momento, num curto espaço de tempo, em que ele me deu sua mão, e andamos assim, íntimos.

caio, lygia fagundes telles, robby cardoso e hilda hilst
No ano seguinte, em São Paulo, nos reencontramos duas vezes numa mesma semana: nas residências de Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst. Eu trabalhava na Editora Siciliano, braço direito de Pedro Paulo de Senna Madureira, e costumava visitar escritores por exigência profissional. No apartamento da autora de “Horas Nuas”, um Caio gentil lembrou Registro com ironia e fez uma comparação inusitada: “Antonio parece galã de cinema dos anos 50. Algo entre John Gavin e James Garner”.  Nunca mais deixou de me chamar Gavin ou Garner, dependia do entusiasmo. Na Chácara do Sol de Hilda Hilst, em Campinas, o clima fechou, tempestuoso. Temperamentais, rancorosos, eles haviam cortado relações há alguns anos e Caio tentava recuperar o tempo perdido de uma antiga amizade iniciada em 1968, em plena ditadura militar, quando foi perseguido pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), refugiando-se no sítio da escritora. Não deu certo, a poeta, dura, abriu a boca sem piedade e ele partiu revoltado. Uma situação tensa e mal resolvida.


CAIO FERNANDO ABREU adorava escrever cartas, assinando muitas vezes como Caio F. - o primo brasileiro da alemã “Christiane F. Drogada e Prostituída”. Ele se dava alcunhas. Em suas cartas, numa espécie de voyeurismo literário, tomamos parte da intimidade do escritor, sabendo de peripécias angustiadas. Demonstrando enorme disposição para o diálogo e a troca, ele escrevia para amigos e também para se apresentar a escritores que não conhecia, expressando admiração. Assim fez amizade com Hilda, Clarice Lispector, Nélida Piñon, entre outros. Morando em diferentes cidades, escrevia loucamente, em um ritmo alucinante. No fundo, entre o fuxico e o desabafo, suas cartas tinham função terapêutica.

caio e eu, 1989
Nascido em Santiago do Boqueirão (RS), jovem ainda mudou-se para Porto Alegre, onde publicou seus primeiros contos. Cursou Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, depois Artes Dramáticas, mas abandonou para dedicar-se ao trabalho jornalístico. Em 1973, deixando tudo para trás, viajou para a Europa, lavando pratos, fazendo traduções e se virando. Andou pela Espanha, Estocolmo, Amsterdã, Londres e Paris. Retornou a Porto Alegre em fins de 1974, com os cabelos pintados de vermelho, usando brincos e se vestindo com batas de veludo cobertas de espelhos. Em 1983 transferiu-se para o Rio de Janeiro e em 1985 passou a residir novamente em São Paulo. Dedicou-se ao jornalismo em revistas como “Pop”, “Nova”, “Veja” e “Manchete”. Foi editor de “Leia Livros” e colaborou nos jornais “Correio do Povo”, “Zero Hora”, “O Estado de S. Paulo” e “Folha de S. Paulo”. Vivemos uma estranha, amarga e comovente amizade. Criatura de mistérios e pânicos, telefonava altas horas da noite, deprimido, bêbado, desabafando num monólogo duro. Algumas vezes estive no seu apartamento na Haddock Lobo e, vez ou outra, saímos pelos bares sórdidos do centro da cidade. Era uma amizade fadada ao fracasso, sem confiança ou afeto, talvez somente por minha conexão com Hilda. Terrivelmente inseguro em relação a sua literatura, o escritor duvidava do seu talento e maldizia os deuses por não escrever como Clarice Lispector ou a própria Hilda Hilst.

Eu temia suas palavras perversas, tristeza absoluta, descrença, críticas ácidas. Na época, ainda inédito em livro, fiquei muito feliz ao receber algumas linhas escritas por ele sobre meus contos: “A literatura de Antonio Nahud submerge o leitor num mundo intrépido de terror e tremor, de beleza indescritível e de uma fascinante prospecção filosófica sobre o tempo, a morte, o amor, o horror, o sexo, a busca”. Hoje consigo dizer, fazia o possível para evitá-lo. Emocionalmente instável, hiper-sensível, frágil e infeliz, nesse período CAIO FERNANDO ABREU sofria demais. Ele tinha explosões repentinas de cólera, seguidas de um silêncio assustador. Via nos otimistas seres imperfeitos e indignos de contar com sua amizade. Abominava a esperança. Numa madrugada, no Sujinho, chorou sem motivo aparente, lamentando não ser levado a sério como escritor. “Como não, Caio? Muita gente admira Morangos Mofados”, apaziguei. “Somente porque falo de drogas e sexo.”. Foi o nosso último encontro.


Voltei a vê-lo mais duas ou três vezes, rapidamente, na redação da revista Interview e em vernissages nos Jardins. Ele dizia: “Como vai, Gavin?”, e nem ao menos esperava resposta. Portador do vírus HIV, seu aspecto debilitado evidenciava a tragédia, mas nunca conversamos a respeito da doença que o consumia. Era um tempo difícil para os portadores dessa enfermidade. Tinham pouco tempo de vida, em geral às voltas com tratamentos penosos. O coquetel veio depois. Alguns biógrafos dizem que ele descobriu-se portador do vírus da AIDS na França em 1994. Não é verdade. Em 1990, muito abalada, Hilda conversou comigo à respeito. Debochado e louco por sexo, Caio se rotulava como devasso. À vontade com sua condição homossexual, numa época de intolerância militar, brincava dizendo que escreveria um gigantesco livro chamado “Os Homens que Eu Tive”, versão gay de “Mulheres”, de Bukowski. Ele é um bom contista. Retrata a cultura pop, entre o bom humor e a tragédia, mas sempre permeado por afeto. Econômica e pessoal, apresenta uma visão exacerbada do mundo urbano moderno. Escreveu, entre outros: “Ovo Apunhalado” (1975), “O Triângulo das Águas” (1984, Prêmio Jabuti), “Onde Andará Dulce Veiga?” (1990) e “Ovelhas Negras” (1996).

Sem despedidas, em 1994, CAIO FERNANDO ABREU partiu para a derradeira temporada europeia, a convite da Casa dos Escritores Estrangeiros, escrevendo de lá bonitas crônicas para o jornal “O Estado de S. Paulo”. Em 1992, Hilda rompeu bruscamente comigo, motivada por um ensaio que escrevi sobre sua vida e obra. De volta a Bahia, nada mais soube sobre o dramático e infeliz amigo. Em 1996, quando morreu, aos 47 anos, eu vivia longe, em Madri. Ele passou os últimos meses de vida na casa dos pais, cuidando de roseiras e canteiros de arruda, alecrim e manjericão. Uma das suas maiores aflições era a falta de dinheiro. Ganhou prêmios, foi traduzido para vários idiomas, mas não conseguiu resolver os problemas financeiros, vivendo modestamente. Reclamava frequentemente, dizia estar apertado, torcia para um dia ficar rico. Pensou muitas vezes em desistir da literatura. “Não desisto de teimosia meio-burra”, disse-me. Felizmente foi teimoso, deixando uma obra interessante.


TODA a OBRA de CAIO FERNANDO ABREU

INVENTÁRIO do IRREMEDIÁVEL (1970)

LIMITE BRANCO (1971)

O OVO APUNHALADO (1975)

PEDRAS de CALCUTÁ (1977)

MORANGOS MOFADOS (1982)

TRIÂNGULO das ÁGUAS (1983)

Os DRAGÕES NÃO CONHECEM o PARAÍSO (1988)

eu e caio
As FRANGAS (1988)

A MALDIÇÃO do VALE NEGRO (1988)
co-autor, Luiz Arthur Nunes

ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA? (1990)

OVELHAS NEGRAS (1995)

ESTRANHOS ESTRANGEIROS (1996)

PEQUENAS EPIFANIAS (1996)

GIRASSÓIS (1997)


FRAGMENTOS: 8 HISTÓRIAS e um CONTO INÉDITO (2000)

A VIDA GRITANDO nos CANTOS (2012)

POESIAS NUNCA PUBLICADAS de CAIO FERNANDO ABREU (2012)

CAIO FERNANDO ABREU: de A a Z (2013)


DOIS ou TRÊS ALMOÇOS, uns SILÊNCIOS
Fragmentos Disso que Chamamos de “Minha Vida”

CAIO FERNANDO ABREU

Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, acorrentado. Ele para. Os dois se olham. Cintilam. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito joias encravadas no dia-a-dia.

Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

Publicado no jornal “O Estado de S. Paulo”, 22/04/1986.



eu com leila miccolis e amigos em registro (sp), 1989