janeiro 02, 2015

....................... APRENDENDO COM O PAI DA MULHER ARANHA



Ilustrações: LEONOR FINI


É próprio da arte perscrutar o ser humano, transcender os limites do racional, seja qual for o suporte da criação. É próprio da literatura relatar, fantasiar, entreter, emocionar, assim como questionar, derrubar certezas e até perturbar o leitor. Algumas obras nos levam do prazer à indignação e podem também passar pelo tédio, ou nos levar à reflexão. Jamais se poderá, entretanto, acusar a literatura honesta de gerar indiferença. Assim, alguns livros como “O Beijo da Mulher Aranha / El Beso de la Mujer Araña”, do argentino MANUEL PUIG (1932 - 1990), tocam em pontos pontos nevrálgicos em que dores pessoais se mesclam à realidade política, sexualidade e a um indelével passado. Publicado em 1976, este romance só foi traduzido para o português em 1980, dentro do boom editorial que tomou conta do Brasil depois da abertura política. Em dois anos atingiu a soma de onze edições e virou um verdadeiro best-seller nacional.

No seu estilo impermeável a classificações, investindo em ousadas inovações formais, o autor narra a história de dois prisioneiros que compartilham a cela de uma prisão situada em algum país da América Latina. Um deles, Valentín Arregui, é um militante político; o outro, Luís Molina, é um homossexual condenado por corrupção de menores. Valentín e Molina travam uma relação complexa, que se desenvolve dentro de uma atmosfera onírica, alimentada pelo cinema hollywoodiano dos anos 1940. O livro não só colocava na ordem do dia o passado político recente da América Latina, como sinalizava para o preconceito pequeno-burguês da esquerda latino-americana da época quando o tema em questão era o universo homossexual. Quatro anos depois,  “O Beijo da Mulher Aranha” (1985) estreou no cinema dirigido por Hector Babenco e concorreu ao Oscar de Melhor Filme, perdendo para Entre Dois Amores / Out of Africa”. Sônia Braga faz a Mulher Aranha, Raul Julia interpreta Valentín, e William Hurt, Molina, em atuação magistral, que lhe deu o Oscar de Melhor Ator. O livro seria também adaptado pelo próprio autor para o teatro.

Traduzido em mais de vinte idiomas, adaptado para o cinema e com peças encenadas na Europa e nos Estados Unidos, MANUEL PUIG mudou-se para o Rio de Janeiro em 1981, morando no Leblon. No Brasil, escreveu em português os romances “Sangue de Amor Correspondido” (1982) e “Cai a Noite Tropical” (1988), além da comédia musical “Gardel, Uma Lembrança” (1987). Em 1988, ainda muito novinho, eu passava temporada na Cidade Maravilhosa. Magricela e curioso, gastava tardes na Cinemateca do Museu de Arte Moderna. Certa vez, depois da sessão de um melodrama mexicano protagonizado pela diva Maria Félix, abordou-me um simpático e sedutor senhor estrangeiro. Ele falava fluentemente português e aparentava ser muito mais jovem do que a idade que tinha (completaria 56 anos em dezembro). Em pouco tempo se fez tão familiar que a impressão que tive era que o conhecia há muitos anos. Entre um gole e outro de café, soube muito sobre a era de ouro do cinema hollywoodiano, marcando novo encontro no mesmo local para o dia seguinte. Como meta, assistir Olivia de Havilland em “Espelho d'Alma / The Dark Mirror” (1946).


manuel puig
Cheguei ao encontro marcado com um exemplar de “Púbis Angelical” (1979), pedindo imediatamente o autógrafo do escritor. MANUEL PUIG, em um misto de português e espanhol, escreveu na folha de rosto do meu exemplar: “Para el guapo Antonio, com mui gracias por seu interesse em minha obra, Manuel Puig”. Na verdade, este era o primeiro livro que adquirira dele, só conhecia a sua literatura de resenhas e entrevistas em jornais e revistas. Sabia da linguagem coloquial, técnica cinematográfica e da utilização de elementos da cultura popular, como letras de tangos e boleros. Sabia também que sua literatura procurava desvendar os dramas mais latentes do ser humano, seus preconceitos e desejos reprimidos, sua asfixia diante da monotonia do cotidiano e suas tentativas de fuga, pela via imaginária, pelo erotismo ou pela nostalgia. No mesmo dia, li de uma só vez, sem parar, a história desafiante, uma fusão de thriller e ficção científica. Tudo se passa na cabeça da protagonista, uma mulher educada para ser objeto sexual e que, depois do feminismo, procura decidir o seu próprio destino. Nos meses seguintes, conheceria toda a obra do escritor, identificando-me com seus personagens que tentam escapar ao tédio e à opressão, seja por uma via mítica – a incorporação ao cotidiano das ilusões hollywoodianas -, seja pelo erotismo.


Durante meses assistimos filmes no MAM, lanchamos na Confeitaria Colombo e caminhamos juntos no calçadão de Copacabana. Ele se queixava da poluição das praias, da deterioração do Rio e da crítica literária brasileira pouco estimulante. Lembrava do tempo em que trabalhou como assistente de Vittorio De Sica e René Clement. Citava André Gide e William Faulkner como escritores favoritos e dizia não se identificar com os escritores brasileiros. Nunca aceitei seus insistentes convites sexuais. Não por pudor, mas por certa repulsa física. O escritor tinha uma afetação contida e nervosa que me desanimava. No entanto, nessas conversas preciosas, muito aprendi com ele. Lembro do susto quando ele me disse estar convencido de que “o homossexualismo não existe, e o heterossexualismo tampouco. São projeções da mente reacionária. A sexualidade é uma atividade tão importante quanto dormir e comer, portanto sem transcendência moral. A sexualidade é jogo, prazer que se esgota nele mesmo. Rótulos foram criados pelo domínio burgues-religioso. Sou completamente contra a identidade sexual”. Já autor de contos e versos inseguros, pedi que desse uma olhada num livro meu, “Sangue Ruim”, premiado em concurso literário na Bahia. Dias depois, recebi os originais de volta com a seguinte consideração escrita à mão na primeira página: “La poesia de Antonio Nahud es todo um desafio a la imaginación, un regalo para los sentidos. Brillante y extravagante. Es dúctil, cromática, igual de sabrosa en la evocación lírica que en el testimonio social”

antonio nahud fotografado por manuel puig
Nos nossos diálogos, MANUEL PUIG afirmava como buscava no cinema do passado soluções para a vida tacanha, refletindo essa obsessão na literatura. Ele tinha alguma semelhança com o ator Tyrone Power e caminhava com passos largos e atléticos. Falava da carreira e da vida privada de estrelas de cinema (Hedy Lamarr, Rita Hayworth, Greta Garbo, Bette Davis, Irene Dunne, Norma Shearer etc.), da condição do escritor latino-americano, da ditadura argentina, dos desaparecidos, da Guerra das Malvinas (acreditava que a guerra, que fora uma manobra dos militares para prorrogar um regime que perdia cada vez mais apoio popular, iria acelerar o fim da ditadura) e, principalmente, comentava sobre os seus livros e projetos literários. Das perguntas que eu fiz e das suas respostas, uma eu nunca esqueci: por que ele escrevera “O Beijo da Mulher Aranha” e o que o levara a inserir nesta obra as notas de rodapé? Respondeu que o seu objetivo foi tocar em um tema ainda tabu entre as esquerdas: a homossexualidade. Daí ele colocar em uma mesma cela um revolucionário homofóbico — que via nos homossexuais um bando de alienados e, pecado dos pecados, pessoas que encerravam vícios burgueses que deveriam ser extirpados pela nova sociedade que ele tanto almejava — e um gay que superava a triste e dura realidade vendo e sonhando com as estórias dos filmes B norte-americanos.

Quanto às notas de rodapé, isso remetia ao seu universo da infância. Nascido e crescido em General Villegas, nos pampas argentinos (só aos 13 anos se mudaria para Buenos Aires), ele, sendo homossexual, sofrera com a falta de informação sobre a sua orientação afetiva. Na sua juventude a medicina se dividia sobre o tema. Uns, defendiam que era uma doença mental; outros, deficiência de testosterona. Assim, ao escrever o romance ele pensara em jovens, também nascidos e vivendo no interior da Argentina, que se descobrem homossexuais. Ao ler o livro, eles teriam as informações mais recentes defendidas tanto pela medicina quanto pela psicanálise sobre o tema. Desejava que estes jovens hipotéticos sofressem e se angustiassem menos do que ele quando se descobriu gay.
 
rita hayworth, a atriz favorita de puig
Embora eu o chamasse de Manuel, ele se chamava a si mesmo Rita (Hayworth) ou Julie (Christie), e falava de outros escritores no feminino, dando-lhes nomes de atrizes: Carlos Fuentes era Ava Gardner e Mario Vargas Llosa era Elizabeth Taylor, atrizes que ele não gostava. Mesmo contra minha vontade, chamava-me de Jane Russell. Talvez por isso não suporte essa atriz ainda hoje. “Sou uma mulher que sofre muito”, disse-me, continuando: “Se pudesse, trocaria toda a vida literária pela felicidade de esperar o meu homem na varanda de casa, bem penteada e maquiada, e a comida pronta. Meu sonho é um amor puro, porém como bem sabe, estou condenada aos amores impuros”. Confiou-me seu desesperado amor por um pedreiro mulato. Chamava seus amantes descartáveis - “casados e potentes” (dizia com falsa modéstia de conquistador) – como aos maridos de Rita Hayworth, sua atriz favorita: Orson (por Welles), Alí (por Alí Khan), Dick (do cantor Dick Haymes) ou Jim (do produtor James Hill). No entanto, toda essa frescura era bastante reservada, discreta, como um segredo compartilhado.

No nosso último encontro, ele insistiu para que eu fosse trabalhar com ele no México. Seria seu assistente pessoal, além de parceiro da paixão cinematográfica mútua. Preferi continuar os estudos na Bahia. No mesmo ano, ele publicou seu último romance, “Cai a Noite Tropical / Cae la Noche Tropical”. Um ano depois, deixou o Brasil para morar no México, estabelecendo-se com sua mãe, Male Puig, nas montanhas de Cuernavaca. Começou a escrever a novela “Humedad Relativa: 95%”, mas não chegou a concluí-la. Em 1990, para a minha tristeza, MANUEL PUIG morreu repentinamente, possivelmente de complicações da AIDS. Acabava de completar 58 anos. Ficaram os seus livros, que revelaram para mim que a literatura argentina não era apenas Jorge Luís Borges e Júlio Cortazar. Preciso voltar a -los. 


TODA A OBRA DE MANUEL PUIG

TRAIÇÃO DE RITA HAYWORTH (1968)

BOQUINHAS PINTADAS (1969)

THE BUENOS AIRES AFFAIR (1973)

O BEIJO DA MULHER ARANHA (1976)

PÚBIS ANGELICAL (1979)

MALDIÇÃO ETERNA A QUEM LER ESTAS PÁGINAS (1981)

SANGUE DE AMOR CORRESPONDIDO (1982)

CAI A NOITE TROPICAL (1988)
manuel puig


7 comentários:

Meire Nogueira disse...

Excelente!

Cristtina Davet disse...

Você conheceu o Manuel Puig ?!? Uauu...! Lí só o "Buenos Aires Affaire" - ele é impressionante.

Henrique Wagner disse...

Achei no mínimo interessante o que achava Puig da sexualidade ("sou completamente contra a identidade sexual"): ele antecipou todos os manifestos da Teoria Queer que encontramos hoje tão em voga. Ou se não antecipou, foi coetâneo sem o saber, o que já o torna um tanto original sim. No mais, uma matéria deliciosa de ser lida, com informações preciosas que só poderia ter vindo de um adepto do jornalismo literário, com suas conficções tão intramuros - e verdadeiras. Abç.

Chico Lopes disse...

Puig foi um escritor que li com admiração. Hoje em dia não sei se o releria com prazer, se não terá ficado datado, como se diz. Mas o filme que saiu de seu livro "O beijo da mulher-aranha" foi dos meus favoritos, nos anos 1980. E eu gostei de ler as revelações tuas neste texto. Parabéns.

Bete Nunes disse...

Eu li o livro. Eu vi o filme. Sabe, sempre acontece de eu imaginar como seria maravilhoso poder "discutir" criaturas literárias - as que me intrigam e me apaixonam - com os seus criadores, vivos ou mortos.

Roberto Lima de Souza disse...

Meu caro Antonio Nahud, a cada dia temos nova e boas referências suas. Uma bela caixa de surpresas. Você é um iceberg cultural. Um 2015 especialmente feliz para você. Forte abraço.

Aurora Maria Martins disse...

magnifico ... gostei de ler