abril 26, 2012

........................................................ MEU NOVO LIVRO

capa de luana aires

 
 
Trago para o leitor o livro de contos PEQUENAS HISTÓRIAS do DELÍRIO PECULIAR HUMANO (Editora Nação Potiguar, 154 págs.), a ser lançado em 17 de maio, às 19h, no Nalva Melo Salão Café, na Ribeira (Natal, Rio Grande do Norte), entre performance artística da atriz Cláudia Magalhães, ao som de jazz e com exposição fotográfica de Morvan França inspirada na obra do pintor Francis Bacon. Pequenas histórias, por certo, apenas no nome. Nelas está toda a experiência que conquistei em andanças pelo Brasil e Europa – lugares que me possibilitaram realizar tanto meu ofício de formação quanto os de vocação. Com prefácio de Jorge de Souza Araújo, poeta e professor de Literatura Brasileira e Literatura Comparada na Universidade Federal da Bahia (UFBA), e apresentação de Ruy do Carmo Póvoas, escritor e ex-professor titular de Língua Portuguesa da Universidade de Santa Cruz (UESC), e Danielle Carvalho Crepaldi, doutorada em Teoria Literária pela UNICAMP, a obra reúne sessenta e quatro curtas histórias escritas nos últimos 10 anos e publicadas em revistas, jornais, sites e blogues. Nem por isso, contudo, são menos significativas em conjunto. No livro, o leitor encontrará a sagacidade, a argúcia, o fascínio, a emoção autêntica, a fábula e a luminosidade que caracterizam meu estilo, com personagens prontos a correrem riscos em busca da crença romântica da plena realização de suas vidas enfadonhas – seja em Portugal, Espanha, Marrocos ou Brasil. 

Dono de uma prosa em que o lúdico, a vivacidade e uma delicadeza de expressão transformam situações banais em material de ficção, reverbero nestas histórias uma evidente influência cinematográfica no ritmo e em descrições voluptuosas. Estão presentes as mitologias grega, romana e nórdica; a tragicomédia de cunho iconoclasta; o fantástico, o terror. Edgar Alan Poe, Henry Miller, Henrik Ibsen ecoam nessas histórias – alguns textualmente mencionados, o que patenteia a vertente literária à qual me inclina. No entanto, o pessimismo predominante nas relações sociais e afetivas por vezes dá as mãos ao lirismo. Em seu conjunto, os escritos de PEQUENAS HISTÓRIAS do DELÍRIO PECULIAR HUMANO oferecem ao leitor um instigante passeio literário e existencial. A obra será lançada ao longo do ano em João Pessoa, Recife, Aracaju, Salvador e São Paulo. Baiano, residindo em Natal, publiquei nove livros, entre eles, “Ficar Aqui Sem Ouvido Por Ninguém”, “ArtePalavra – Conversas no Velho Mundo” e “Se Um Viajante Numa Espanha de Lorca”.

Lançamento
PEQUENAS HISTÓRIAS do DELÍRIO PECULIAR HUMANO
de Antonio Nahud

Data:
17 de maio de 2012, às 19h

Local:
Nalva Melo Salão Café
(Av. Duque de Caxias, 110 – Térreo  do Edifício Bila, Ribeira,
Natal, Rio Grande do Norte)



abril 15, 2012

..................................................... SUBINDO por ONDE se DESCE



 
Ilustrações:
SALVADOR DALI
(1904 - 1989. Figueres / Espanha)
 
 
Amálgama de pessoas distintas, metafórico, contraditório, cúmplice, desajeitado, ambíguo, romântico, preocupado com os deserdados, selvagem e, segundo o escritor Caio Fernando Abreu, parecido com o ator John Gavin. Incapaz de lembrar razoavelmente o passado. Vivo o hoje. Canto desafinado, cozinho com paixão, digito mal, dirijo pior ainda. Choro vendo filmes sobre a II Guerra Mundial. Adolf Hitler me tira do sério. Não assisto tevê. A favor da família, da tolerância e do amor. Racistas, pedófilos, fanáticos e preconceituosos merecem exílio eterno num satélite russo. Tenho repulsa ao espírito irônico. Não entendo piadas e abomino fronteiras - o mundo deveria ser para todos. Apaixonado pela fauna e flora. Corpo fechado, geminiano, e sempre, quase sempre gentil. Medito, orações católicas, mantras budistas, incensos, sal grosso, banho de manjericão. Música, sempre: dependendo da disposição, jazz, bossa-nova, rock psicodélico, erudita, samba. Não tenho senso de direção, nunca sei o caminho de volta. Acredito em vultos, entidades, sussurros na escuridão. Subo em escadas rolantes que descem. Caminhei no Saara, dormi em aldeias perdidas nos séculos, conheço um pouco do mundo. Cavalgo com algum charme e me ajoelho diante do esplendor da visão artística. É o que me salva. Estrelas cadentes, trovões, raios, chuvarada boa: dão-me felicidade. Falo sozinho. Converso com árvores, abelhas, felinos, flores, colibris, vagalumes. Acredito em extraterrestres, sereias, dragões, anjos. Mar e rio, castelos góticos e aventuras poéticas. Anti shopping-center. Corto-me – sempre! - ao fazer a barba. Alguns homens de negócios merecem umas boas bofetadas, assim como muitos políticos. Coleciono filmes clássicos e emoções baratas aprisionadas em diários. Perfumado noite e dia. Lealdade e generosidade me comovem. Sempre manga, abacate e mamão; cebola, cominho e alho. Vinho tinto seco, de outras terras. Jogo quest, xadrez, tarôt, I Ching. Mané, zoado, polêmico, criativo, dócil, poeta: Antonio Nahud, muito prazer.


março 20, 2012

............................. PRATEADOS e EXATOS: VERSOS e IMAGENS

eu por morvan
 
 
SWOON

Antonio Nahud 

para Sylvia Plath
(Londres, 1998)

preparo-me para não entender o idioma,
as melhores intenções.
não quero convite de anjos.
me angustia
ter que deixar estas ruas sujas,
a poesia tortuosa,
a memória gravada em diários.
louco como sou,
descontente entre vítimas
que rastejam ao meu lado,
cada vez estou mais distante,
em chamas,
à espera do consolo de quimeras,
sabendo da desimportância de nomes.
se me contempla a lua cheia?
ela sabe que aqui estou.
ardendo sem réplica,
pronto para tomar um chá pleno
na Maison Bertaux, no Soho,
pleno,
um
chá,
é o que posso me oferecer
para remediar a situação.

A poeta SYLVIA PLATH nasceu em Boston (EUA), em 1932. Teve uma passagem melancólica por Nova York, tentando o suicídio por mais de uma vez. Casou em 1956 com o poeta inglês Ted Hughes, e foi com ele para  Cambridge, Inglaterra. Teve dois filhos. Descasou em 1962, escreveu seus poemas capitais, publicados postumamente em “Ariel” (1965). Dois anos antes, em 1960, lançara o seu primeiro livro, “Colossus. Em 11 de fevereiro de 1963, aos 30 anos de idade, cometeu suicídio respirando gás na cozinha de sua residência.

POEMAS de SYLVIA PLATH

ESPELHO

Sou prateado e exato. Eu não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo imediatamente
Do jeito que for, desembaraçado de amor ou de aversão.
Não sou cruel, apenas verdadeiro –
O olho de um deusinho, de quatro cantos.
O tempo todo reflito sobre a parede em frente.
É rosa, com manchas. Fitei-a tanto
Que a sinto como parte de meu coração. Mas vacila.
Faces e escuridão insistem em nos separar.

Agora sou um lago. Uma mulher se inclina para mim,
Buscando em domínios meus o que realmente é.
Mas logo se volta para aqueles farsantes, o lustre e a lua.
Vejo suas costas e as reflito fielmente.
Ela me paga em choro e agitação de mãos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã sua face reveza com a escuridão.
Em mim afogou uma menina, e em mim uma velha
Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrendo.

OUTONO de RÃ

O verão envelhece, mãe impiedosa.
Os insetos vão escassos, esquálidos.
Em nossos lares palustres nós apenas
Coaxamos e definhamos.

As manhãs se dissipam em sonolência.
O sol brilha pachorrento
Entre caniços ocos. As moscas não chegam a nós.
O charco nos repugna.

A geada cobre até aranhas. Obviamente
O deus da plenitude
Está morando longe daqui. Nosso povo rareia
Lamentavelmente.

40 GRAUS de FEBRE

Minha cabeça uma lua
De papel japonês, minha pele de ouro laminado
Infinitamente delicada e infinitamente dispendiosa.

Não te assombra meu coração. E minha luz.
Eu sou, toda eu, uma enorme camélia
Esbraseada e a ir e vir, em rubros jorros.

Creio que vou subir,
Creio que posso ir bem alto —
As contas de metal ardente voam, e eu, amor, eu

Sou uma virgem pura
De acetileno
Acompanhada de rosas,

De beijos, de querubins,
Do que venham a ser essas coisas rosadas.
Não tu, nem ele

Não ele, nem ele
(Eu toda a dissolver-me, anágua de puta velha) —
Ao Paraíso.

eu por morvan

março 16, 2012

março 10, 2012

................................................................... A LITERATURA




Ilustrações:
JORGE VIEIRA
(1922 - 1998. Lisboa / Portugal)

 
Mexendo no “baú de guardados” encontrei uma crônica de juventude, pertinho do comecinho de tudo. Na época, eu publicava artigos em um jornal grapiúna. Unicamente como exercício literário. Textos curtos polêmicos ou líricos, agrupados em livro inédito, “A Língua Apunhalada”, no capítulo “Crônicas Grapiúnas”.

A LITERATURA

(1993)

A literatura é um território inesgotável de emoções. O mais puro deleite para um coração por vezes esgotado e intolerante. Existem pessoas que aprendem a viver acompanhando telenovelas, outras constroem o seu caráter mergulhando na linguagem de Dostoievski ou Hermann Hesse. Na adolescência, costumava levar dois ou três livros como companheiros de acampamentos (em Olivença, Morro de São Paulo, Trancoso, Barra Grande, Itacaré etc.). O professor de literatura Ruy do Carmo Póvoas e o jornalista-ator Gideon Rosa foram os primeiros a me incentivarem ao hábito de ler. Logo a seguir, surgiu a poeta Genny Xavier na minha vida, passando a amar a lírica. Se bem que ela admirava Carlos Drummond de Andrade e eu a técnica seca de João Cabral de Mello Neto. Juntos escrevemos a peça bucólica “O Mundo Visto Através dos Olhos de Duas Mulheres Pálidas”. Uma bela amizade que perdura. Graça Viana e Kátia Vieira, funcionárias da Ceplac em sua fase áurea, apresentaram-me suas fantásticas bibliotecas. O saudoso jornalista Luis Wilde revelou-me escritores de vanguarda, e com a intimidade literária, apaixonei-me por personagens do calibre de Werther, Ofélia, Heathcliff, Ana Karenina, Carmem, Gregor Sansa e Giovanni. Cercado de livros por todos os lados, pergunto o que me leva a viver amancebado às palavras? O que significa escrever da juventude à maturidade? Talvez escreva, por assim dizer, para agradar. É isso que, de certo modo, todo escritor faz. Sou um ser seduzido pela literatura, homem viciado em papéis, celulóide e imaginação. Encontro emoção e bons sentimentos ao ler um livro, ver um filme, ouvir uma música ou escrever um texto. Mereço perdão, caro leitor?
 


fevereiro 16, 2012

............................................ A HORA e a VEZ de SAM SPADE




ENTREVISTANDO ANTONIO NAHUD
JORNAL DE HOJE 
(Natal, RN)
14 de Fevereiro de 2012

por Rafael Amaral


Blogueiro e apaixonado pela sétima arte, o jornalista e escritor Antonio Nahud, autor de oito livros e, durante anos, correspondente de veículos de comunicação na Europa, onde foi viver em 1994, apesar de não se considerar um crítico de cinema, solta o verbo em seu blog, cujo título faz clara homenagem ao cinema clássico:O Falcão Maltês – Uma Viagem Pessoal Pela História do Cinema”. Conhecido por seus leitores como Sam Spade, o personagem de Humphrey Bogart no filme noir clássico que intitula o blog, Antonio edita esta revista cinéfila com absoluto sucesso, com leitores de diversos países e matérias elogiadas. “Muitos filmes clássicos, fundamentais para a história do cinema, foram produzidos com finalidade comercial”, ele afirma. Antonio vive hoje em Natal, no Rio Grande do Norte e finaliza um livro de contos que será lançado ainda este ano, “Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano”. Abaixo, a entrevista completa:

Seu blog, “O Falcão Maltês”, já apresenta, de cara, uma homenagem ao cinema clássico, em um filme não apenas grande, mas um divisor de águas. Como nasceu a paixão pelo cinema clássico e por que escolheu este filme de título para seu blog?

Sou fascinado por filmes, de ontem e de hoje. Vejo com o mesmo prazer um bom filme mudo dos anos 20 ou o mais recente Martin Scorsese. Vou e volto no tempo cinematográfico com facilidade e sem traumas. Porém, não nego que o noir é o gênero que mais me atrai, assim, para mim, nesse momento vigoroso da década de 40 o cinema se destaca, influenciando filmes futuros. “O Falcão Maltês” não é o meu noir favorito, mas – como muita gente – considero-o o “pai” do gênero. Uma noite, assistindo-o pela terceira ou quarta vez, tomei algumas anotações e tive vontade de compartilhá-las publicamente. Assim surgiu o blog em outubro de 2010.

Com a internet, o público chega mais facilmente aos filmes antigos, antes esquecidos?

Noto um verdadeiro tráfico cinéfilo clássico na net. Troca-se impressões, descobre-se artistas esquecidos, valoriza-se identificações, indica-se onde encontrar determinados filmes. Conheço cinéfilos com menos de 20 anos seduzidos pelo cinema clássico. E dão show de competência em seus blogs.

Em uma entrevista em seu blog, você diz que, entre os piores filmes que viu no ano passado, está o “Além da Vida”, e, entre os melhores, “A Árvore da Vida”. Às suas maneiras, são filmes religiosos, sobre a abordagem da vida após da morte, talvez. O cinema é uma maneira de trazer o homem para perto de certa espiritualidade? Não acha que, com mais simplicidade e narrativa linear, “Além da Vida” consegue melhor o seu propósito de comover e se aproximar do público?

Não disse que “Além da Vida” é detestável. Clint Eastwood jamais seria desprezível. Como tenho uma certa aversão a shoppings, só vou ao cinema depois de uma triagem rigorosa, ou seja, para ver filmes que já tenha alguma afinidade indispensável. Dentre esses, que já fazem parte de uma “categoria especial” no meu universo de cinéfilo, em 2011, Além da Vida não me empolgou o suficiente. Mas tem um bom roteiro e Eastwood domina um tema delicado com habilidade. “A Árvore da Vida” é outra coisa, uma obra complexa e poética.

Você faz parte daquele grupo de cinéfilos que, entre os dez melhores filmes que viu na vida, todos são antigos, em geral em preto e branco?

Vixe… Deixe-me pensar um pouco… Creio que todos os dez melhores filmes que vi são antigos. No máximo chegaria a “Gritos de Sussurros”, de Bergman, ou “Um Dia Muito Especial”, de Ettore Scola, nos anos 1970. Mas nem todos são em preto e branco. “Cantando na Chuva”, por exemplo, é um espetáculo de cores.

Entre as grandes figuras conhecidas que entrevistou, como Carlos Saura e Bernardo Bertolucci, lembra de alguma particularidade, algo despercebido pelos fãs, que lhe marcou?

A grande maioria de minhas entrevistas foi feita em coletivas, festivais de cinema, lançamentos cinematográficos. Tudo muito superficial, muito profissional e com o tempo cronometrado. Mas me surpreendi muitas vezes. Por exemplo, com a afeição de Bertolucci pelo cinema brasileiro, o bom humor de Woody Allen, a inteligência de Isabelle Huppert, o esnobismo de Catherine Deneuve, a densidade espiritual de Irene Papas, a informalidade de Almodóvar, a sensualidade intacta e a simplicidade de Sophia Loren, a beleza sedutora de Ewan McGregor, a magreza assustadora de Penélope Cruz, o tipo amigável de Javier Bardem etc.

Como seu blog faz referência a um filme noir, não posso deixar de perguntar: qual o maior anti-herói do cinema? Não vale o Sam Spade… (risos)

Gosto muito do George Eastman de Montgomery Clift em “Um Lugar ao Sol”, de George Stevens. Ele é ambicioso, infiel, alpinista social e um assassino involuntário, mas não deixamos de nos apaixonar por ele, torcendo para que supere essas deficiências de caráter e fique com a linda mocinha Liz Taylor no final da fita.

Qual o maior medo de um cinéfilo: ficar cego ou perder a memória?

Algumas vezes pensei como seria torturante viver sob o domínio da cegueira. Quase tudo que amo exige o olhar, a visão. Já perder a memória seria uma lástima, mas acontecendo, de nada lembraríamos, não haveria saudades ou conflitos. A cegueira se impõe. Você está com a mente acesa, e também proibida para muitos prazeres. Deve ser terrível. Lembro do escritor argentino Jorge Luís Borges, um cinéfilo que perdeu a visão. Felizmente ele passou o resto da vida recordando detalhes preciosos dos filmes que viu. Não é o meu caso. Minha memória não é tão detalhista. Estou sempre revendo filmes para recordar-me de certos aspectos.

E, quando a memória vai lá no fundo do baú, qual imagem ela resgata, qual aquela que lhe marca, que faz toda a diferença em sua vida?

Não sou felliniano. Dos mestres italianos, é o que menos me atrai. Mas quando vou lá ao comecinho da paixão cinéfila, o filme que surge é “Amarcord”, de 1974, que vi nos anos 80, em um cinema de arte. Ele marcou minha adolescência, mudou minha vida intelectual e me fez compreender que o cinema me ajudaria a não sucumbir às desilusões do cotidiano. Portando, a partir de “Amarcord”, assim como a Mia Farrow de “A Rosa Púrpura do Cairo”, o cinema tornou-se vital para mim. Inclusive, em momentos de crise, desabafo assistindo filmes, e muitas vezes me revigoro, partindo de novo à luta com renovada disposição.

janeiro 31, 2012

................................ DOIS de FEVEREIRO, DIA de FESTA no MAR



 
Ilustrações:
CARYBÉ
(1911 - 1997. Lanús / Argentina)
 
 
No dia dois de fevereiro, celebra-se Mãe Yemanjá, a senhora dos oceanos, regente absoluta dos lares e protetora da família, chamada também de Dona Janaína ou Deusa das Pérolas. A mais tradicional festa em sua homenagem acontece em Salvador, capital da Bahia, na praia do Rio Vermelho, movimentando um grande número de iniciados e simpatizantes, tanto da Umbanda como do Candomblé. Na mesma data, ela também é cultuada em diversas outras praias brasileiras, onde lhe são ofertadas velas, perfumes, espelhos, pentes, colares e flores, lançados ao mar em pequenos barcos artesanais, após o devoto pular sete ondas. No Rio de Janeiro, as comemorações marcam a passagem de ano e podem ser vistas por toda a orla marítima. Segundo o escritor baiano Jorge Amado, Yemanjá é também conhecida por dona Janaína, Inaê, Princesa de Aiocá e Maria, no paralelismo com a religião católica. Aiocá é o reino das terras misteriosas da felicidade e da liberdade, imagem das terras natais da África, saudades dos dias livres na floresta.



Os Orixás são deuses de origem africana que correspondem a pontos de força da natureza e os seus arquétipos estão relacionados às manifestações dessas energias. As características de cada Orixá aproximam-os dos seres humanos, pois eles manifestam-se através de emoções. Sentem raiva, ciúmes, amam em excesso, são passionais. Cada um tem o seu sistema simbólico particular, composto de cores, comidas, cantigas, rezas, ambientes, espaços físicos e até horários. Estes deuses são divididos em quatro elementos – água, terra, fogo e ar. Alguns estudiosos ainda vão mais longe e afirmam que são quatrocentos o número de Orixás, divididos em cem do Fogo, cem da Terra, cem do Ar e cem da Água. Porém, os mais conhecidos formam um grupo de 16 deuses. Eles, como resultado do sincretismo que se deu durante o período da escravatura, foram associados a santos católicos, devido à imposição do catolicismo aos negros.

O nome de Yemanjá deriva da expressão YéYé Omó Ejá, que significa, mãe cujos filhos são peixes. Na África, era cultuada pelos Egbá, nação Iorubá da região de Ifé e Ibadan, onde se encontra o rio Yemojá. Apesar de no Brasil ser celebrada nas águas salgadas, a sua origem é de um rio que corre para o mar. Inclusive, todas as suas saudações, orikís e cantigas remetem a essa origem. “Odó Iyà”, por exemplo, significa mãe do rio, já a saudação “Erù Iyà” faz alusão às espumas formadas do encontro das águas do rio com as do mar. Yemanjá é a mãe de todos os filhos, mãe de todo mundo. Ela sustenta a humanidade e, por isso, os órgãos que a relacionam com a maternidade, ou seja, a sua vulva e seus seios chorosos, são sagrados. Espelho do mundo, reflete todas as diferenças. Mãe que orienta, mostra os caminhos, educa, e explora as potencialidades do ser humano. Dissimulada e ardilosa, faz chantagem afetiva para manter os filhos sempre por perto. Suas cores são o azul claro e branco; sua bebida, o espumante ou o champanhe.

Quando Olodumaré criou o mundo, dividiu-o conforme a natureza individual dos Orixás, entregando um reino específico para cada um governar. Para Yemanjá, coube como missão, cuidar de Oxalá, de assisti-lo em suas tarefas, de cuidar de sua casa e de seus filhos. Insatisfeita, pois todos os outros Orixás pareciam ter funções mais importantes, ela reclamava o tempo todo. Teve também problemas com a maioria dos seus muitos filhos. Ossain, o mago, saiu de casa muito jovem e foi viver na mata virgem, estudando as plantas. Contra os conselhos da mãe, Oxóssi bebeu uma poção dada por Ossain e, enfeitiçado, também passou a viver no mato. Passado o efeito da poção, ele voltou para casa, mas Yemanjá, irritada, expulsou-o. Então Ogum a censurou por tratar mal o irmão. Exu, seu outro filho, encantou-se por sua beleza e tomou-a a força, tentando violentá-la. Bravamente ela resistiu à violência do filho que, na luta, dilacerou os seus seios. Arrependido pelo que fez, Exu saiu no mundo, desaparecendo no horizonte. Entre a dor, a vergonha, a tristeza e a pena que teve pela atitude do filho, ela pediu socorro ao pai Olokum e ao criador Olorum. E, dos seus seios dilacerados, a água, salgada como a lágrima, deu origem aos mares. Exu, pela atitude infeliz, foi banido da mesa dos Orixás, tendo como incumbência ser o guardião, não podendo se juntar aos outros na corte. Em conflito com os filhos, Yemanjá chorou tanto que se derreteu e formou um rio que correu para o mar. 

Numa Casa de Santo, Yemanjá atua dando sentido ao grupo, à comunidade ali reunida e transformando essa convivência num ato familiar; criando raízes e dependência; proporcionando sentimento de irmão para irmão em pessoas que há bem pouco tempo não se conheciam; e também o sentimento de pai para filho ou de mãe para filho nos casos de relacionamento dos Babalorixás (Pais no Santo) ou Ialorixás (Mães no Santo) com os Filhos de Santo. É ela que proporciona boa pesca nos mares, regendo os seres aquáticos e provendo o alimento vindo do seu reino. É ela quem protege os navegantes e pescadores. Salve, Rainha do Mar!


CULINÁRIA RITUALÍSTICA para YEMANJÁ

MOQUECA de SIRI

Ingredientes: 
200g de carne de siri; cebola; tomate; coentro; suco de limão; sal; dendê; 1/2 xícara de leite de coco.

Preparo: 
Refogar os temperos, juntar o siri e cozinhar. Por fim, despejar o leite de coco e apurar o caldo.

MANJAR BRANCO

Ingredientes: 
1 litro de leite; 1 coco; 2 colheres (sopa) de maizena; 1 xícara de açúcar; 1 prato branco grande; e mel.

Preparo: 
Ralar o coco e colocá-lo num guardanapo, espremendo bem, até sair o leite, que deverá ser reservado. Numa panela, ferver o coco ralado com o leite. Depois coar, separando o coco do leite. Com uma pequena parte do leite se dissolve a maizena. Acrescenta-se o açúcar, mexendo sempre com uma colher de pau. Antes de começar a ferver, juntar o leite do coco, que ficou reservado. Quando esta mistura atingir a consistência de uma papa bem grossa, o manjar estará pronto. Despejar numa forma previamente molhada. Lavar o prato branco em água e mel. Desenformar o manjar depois de frio, para não rachar, enfeitando com coco ralado.